OPINIÃO: Precisamos ir além das bananas e dos macacos

Por DANIEL FINIZOLA

Esta semana, a internet foi tomada por bananas e macacos. Tudo teve inicio quando um torcedor do Velho Mundo, tido como civilizado, jogou uma banana no jogador brasileiro do Barcelona, Daniel Alves. A banana tinha por objetivo incitar o racismo, comparando o jogador a um macaco. O brasileiro não perdeu tempo, nem a banana. Tratou de pegar a fruta, descascar e comer, ali mesmo, na frente de todos e todas. Tudo televisionado. Era um protesto, certo?

Para entender o racismo, é preciso retomar a história e perceber que o Velho Mundo tem um forte histórico de racismo e xenofobia. Em tempos de mercantilismo, o comércio de homens negros era uma grande fonte de lucro para os homens brancos que também usavam as crenças religiosas católicas para justificar o ato. Por volta do século XIX, com a segunda fase da Revolução Industrial e o neocolonialismo, os europeus avançaram sobre a África e a Ásia, praticando todo tipo de violência contra os povos africanos, roubando suas riquezas. A justificativa dos europeus para tais atos era bonita: “Precisamos levar a civilização para os africanos”. Na verdade, o que o Velho Mundo deixou para a África foi muita morte, exploração e desestruturação das organizações sociais africanas. Isso sem falar nas teorias de superioridade de raça, nos atos xenofóbicos nazistas e nas recentes ações de grupos como os skinheads.

A colonização brasileira exercida pelos europeus disseminou o patriarcalismo, clientelismo e o racismo em nossa sociedade. Infelizmente, esses valores continuam latentes. As sequelas vão se revelando nas estatísticas dos jovens negros assassinados nas periferias, na violência contra a mulher ou no preconceito contras as religiões de matriz afro. A colonização norte-americana também fez uso do trabalho escravo e, da mesmo forma que aconteceu no Brasil, a abolição da escravidão não representou a inclusão social e econômica dos negros.

Mas, o que dizer de jogadores que são milionários e ainda continuam sofrendo com atos racistas? Isso só indica que não é simplesmente uma questão de grana, mas de construção simbólica e social. Pense e analise como a história do negro foi tratada na sua escola, isso quando ela é citada.

Geralmente fala-se da comida, da música e da dança, não é mesmo? Tudo com um ar meio exótico como se isso não fizesse parte do que somos.

Vejo muitas instituições de ensino comemorando o Dia de São Patrício com cartazes e vestimentas verdes – nada contra a manifestação para o santo irlandês, mas é algo que não está diretamente ligado à nossa cultura. Agora, uma pergunta: alguém lembra de ter visto alguma comemoração na escola ou na faculdade em homenagem à Iemanjá, Ogum ou Oxalá?

De modo geral, a história da etnia negra não ganhou destaque nas grandes narrativas positivistas, que, por sinal, ainda fundamentam muitos dos livros de história de ensino básico no Brasil. Dentre vários outros, esse é um dos fatores que contribuem de forma significativa para que jovens e adultos tenham grande dificuldade de entender e conviver com diversidade cultural e econômica que constitui este país.

Racismo é coisa séria! Precisamos ter cuidado para que a espetacularização da ironia feita por Daniel Alves, ao qual não tenho nada contra, não venha esvaziar o debate que provocou.

Até semana que vem.

daniel finizola

 

@DanielFinizola, formado em ciências sociais pela Fafica, é músico, compositor e educador. Escreve todas as quartas-feiras para o blog. Site: www.danielfinizola.com.br

Natural do Rio de Janeiro, é jornalista formado pela Favip. Desde 1990 é repórter do Jornal VANGUARDA, onde atua na editoria de política. Já foi correspondente do Jornal do Commercio, Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo e Portal Terra.

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