OPINIÃO: A cultura da bola e o monopólio da Fifa

Por DANIEL FINIZOLA

Estamos a poucos dias de assistir um dos maiores espetáculos do globo, a Copa do Mundo. Em 2007, ano em que o Brasil foi escolhido para sediar o torneio, isso era motivo de orgulho e felicidade para 79% dos brasileiros, segundo o Datafolha. Afinal de contas, somos o país que detém cinco campeonatos mundiais e os maiores craques do mundo, histórico que nos deu o título de “país do futebol”, certo? Mas parece que a população, de uma maneira geral, se cansou de ser apenas o “país do futebol”.

Ano passado, quando estouraram as manifestações de junho, víamos vários cartazes nas ruas com frases do tipo “Queremos saúde e educação padrão Fifa”. Parece que caiu por terra o discurso de que grandes eventos mudam um país. Mais uma falácia do modelo desenvolvimentista, ou seja, crescimento a todo custo, adotado pelos gestores que chegaram ao poder no Brasil. O que de fato muda um país é a interação consciente e qualificada da população junto às esferas de poder, seja privada ou pública.

A Copa é um negócio de muitas cifras. Quem sedia o evento ganha visibilidade internacional, impulsiona a economia, mesmo que de forma sazonal, não há como negar. Muitos se apoiam na retórica de que a Copa deixa um grande legado de infraestrutura que vai beneficiar o país, mas aí eu pergunto: é preciso uma Copa para gerar infraestrutura que atenda às demandas da população? Não deveria ser assim, concordam? É preciso analisar e ver quem de fato mais vai se beneficiar com essas obras. Com certeza, a especulação imobiliária anda ganhado espaço nesse jogo milionário. As arbitrariedades que envolveram as desapropriações para a realização das ações da Copa fizeram o “país do futebol” sentir vergonha. Quem não lembra do triste episódio envolvendo o Museu do Índio no Rio de Janeiro? Esse é apenas um dos vários episódios em torno das desapropriações em nome do evento Fifa.

O BNDES concedeu empréstimos generosos para as empreiteiras que estão à frente da construção dos estádios. Juros baixíssimos, algo em torno de 0,9% ao ano. Bom demais, não? O problema é que o orçamento de todos os estádios estourou, e não foi pouco. As empreiteiras pegaram empréstimos no limite do permitido. Vejamos: supondo que eu seja dono de uma empreiteira e orço o estádio em R$ 745,3 milhões, mas, supostamente, o dinheiro não deu. Então pego mais alguns milhões emprestados com esses juros camaradas. Aplico o dinheiro em uma instituição com juro maior, lucro algumas centenas de reais no mercado financeiro e pago o empréstimo ao BNDES. Alguém duvida que isso esteja acontecendo? A Copa, sem dúvida, é um meganegócio para as empreiteiras. Ainda temos grandes questões a debater, como, por exemplo, qual será a real utilidade dos estádios após o fim da Copa? Vejamos o estádio de Brasília, um dos mais caros construídos para o evento. Custou a bagatela de R$ 1,4 bilhão. Qual a tradição futebolística que a nossa capital tem? Sendo assim, seria bom analisar o custo-benefício de uma obra como essa, não?

A Fifa, instituição que procura monopolizar a cultura do futebol no mundo, é uma empresa constituída de pouca transparência, muita exigência, lobby e corrupção. Nos últimos anos procurou aportar seus eventos e influência em países com instituições democráticas frágeis, impondo um modelo de produção e comercialização do evento que garante a todo custo lucros exorbitantes para ela e seus parceiros. A famigerada Lei da Copa, aclamada pela maioria de oposição e situação, interfere diretamente na Lei de Responsabilidade Fiscal, gerando o endividamento acima do permitido pelos municípios que vão sediar o Mundial. Isenta a Fifa do pagamento de impostos, libera visto de trabalho para os indicados da entidade máxima do futebol e por aí vai.

O Brasil virou rota de vários eventos internacionais, seguindo a lógica da visibilidade e crescimento econômico que o país passou a ter nos últimos dez anos. Eventos como a Copa, que fazem uso de dinheiro público, devem ser envolvidos de uma cultura de transparência, controle social e participação popular, ou seja, valores que passam longe da filosofia da Fifa.

Até semana que vem.

daniel finizola

 

@DanielFinizola, formado em ciências sociais pela Fafica, é músico, compositor e educador. Escreve todas as quartas-feiras para o blog. Site: www.danielfinizola.com.br

Natural do Rio de Janeiro, é jornalista formado pela Favip. Desde 1990 é repórter do Jornal VANGUARDA, onde atua na editoria de política. Já foi correspondente do Jornal do Commercio, Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo e Portal Terra.

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