OPINIÃO: ‘A Peleja do Diabo com o Dono do Céu’

Por DANIEL FINIZOLA

Vou dar sequência à análise de discos emblemáticos da música brasileira. Anteriormente falamos sobre a famosa “Tábua de Esmeraldas”, do Jorge Ben. Hoje vamos falar de um artista de voz inconfundível que traz “no seu alforge” letras místicas cheias de metáforas e sons sombrios. Ao mesmo tempo mistura frevo, baião e baladas com a singularidade que marcou sua carreia. Ele veio de uma geração que rendeu bons frutos para a música nordestina, notabilizando-se por uma musicalidade que conectou o Nordeste e suas características com o universo musical dos anos 70. Não é à toa que muitos o comparam com figuras como Bob Dylan.

Mas vamos fazer um recorte na carreira de Zé Ramalho com disco que considero fundamental para entender um pouco do universo musical desse paraibano. O nome já intriga: “A Peleja do Diabo com o Dono do Céu” Esse é o título do seu segundo disco. Foi gravado em 1979 no estúdio de 8 canais da C.B.S, na cidade do Rio de Janeiro, lugar que acolheu muitos nordestinos que foram em busca de oportunidades artísticas, como Alceu Valença e Elba Ramalho.

O disco conta com sucessos emblemáticos na carreira do artista, como “Garoto de Aluguel” e “Admirável Gado Novo”, música que, curiosamente, passou pela censura da ditadura militar.

A obra também aponta toda uma interação com a cena política e artística da época. “Falas do Povo”, terceira faixa do disco, foi dedicada a Geraldo Vandré, artista que compôs uma das músicas-símbolo contra a ditadura militar. “Agônico”, música instrumental batizada por Jorge Mautner, onde Zé Ramalho executa todos os instrumentos. “Monte das Amplidões”, baião cheio de cadência e discurso místico.

Participações rechearam o disco de sensibilidade e genialidade. “Beira do Mar”, por exemplo, tem o violão de 12 cordas executado pelo virtuoso Geraldo Azevedo. “Jardim das Acácias”, uma das minhas preferidas, tem a assinatura de Pepeu Gomes nas guitarras. Não podemos deixar de destacar os arranjos de corda e metais de Paulo Machado, algo que fez o trabalho dialogar com o universo erudito sem perder o caráter popular.

Ramalho_front

A ideia da capa é do próprio Zé Ramalho, e brinca com o imaginário do título do disco. Tem participação especial de figuras como José Mujica Martins, o famoso Zé do Caixão, e o grande artista plástico Hélio Oiticica, ou seja, só tem fera na concepção da obra.

A última música do disco é um frevo de bloco cheio de metais que acabou virando um clássico da música nordestina. Porém, o arranjo que caiu no gosto popular não foi o que Zé Ramalho fez para esse disco, mas o que Amelinha apresentou em um dos seus trabalhos. A música ganhou velocidade e virou um arrasta-pé que não pode faltar no repertório de nenhuma banda que se dispõe a animar o salão. Quem nunca dançou ou escutou a música “Frevo Mulher” no São João? Aqueles acordes inicias são inconfundíveis, não é mesmo?

A “Peleja do Diabo com o Dono do Céu” é, sem dúvida, um trabalho que deu grandes contribuições para a música nordestina e brasileira. Esse tem lugar especial na minha discoteca.

Até semana que vem.

daniel finizola

 

@DanielFinizola, formado em ciências sociais pela Fafica, é músico, compositor e educador. Escreve todas as quartas-feiras para o blog. Site: www.danielfinizola.com.br

Natural do Rio de Janeiro, é jornalista formado pela Favip. Desde 1990 é repórter do Jornal VANGUARDA, onde atua na editoria de política. Já foi correspondente do Jornal do Commercio, Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo e Portal Terra.

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