ARTIGO — À flor da pele

Maurício Assuero

O mercado viveu essa semana mais um momento de turbulência causada por uma série de boatos. Um deles dizia que o presidente Lula iria fazer pronunciamento da carceragem da Polícia Federal. Isso foi suficiente para que o dólar, em queda, começasse a subir rapidamente e, de fato, fechou em alta de 0,93%. Em diversos momentos aqui, já colocamos a rejeição do mercado a uma candidatura de Lula. Mais até do que quando ele mostrou que tinha reais chances de ser eleito em 2002. Tudo isso decorre, simplesmente, da nova postura assumida por ele, e pelo partido, dando a entender que haveria perseguição.

Também porque ele, e o partido, culpam “aqueles que não querem sua volta” pela condenação. Então, só a possibilidade de um pronunciamento e Lula deixou o mercado em polvorosa.

Uma segunda onde de boatos, este até que ponto verdadeiro ninguém sabe, dizia que o ex-secretário de obras do governo Alckmin, Laurence Casagrande, havia fechado um acordo de delação premiada e isso iria atingir diretamente o ex-governador. Os advogados do ex-secretário passaram a negar veementemente, no entanto, isso pode ser aquela forma de negar, sem negar. Uma denúncia contra o ex-governador paulista, no momento no qual ele é oficializado como candidato do partido, seria um golpe sem volta e embolaria o cenário político.

A inquietação econômica estará suscetível a tais oscilações. Em um regime normal de atuação essas flutuações são responsáveis pelos dividendos e pelas bonificações recebidas pelos acionistas. Assim, num ambiente normal, o trâmite de conversas, ou boatos, gira muito em torno no desempenho das empresas, da fusão de empresas, da troca de comandos. Hoje, a ameaça é de prisão de agentes políticos, de agentes públicos, e o risco de mudança do discurso afeta, diretamente, as expectativas de lucros. Tendo em vista o volume de processos abertos ou em andamento envolvendo os políticos brasileiros, não se espera outra coisa senão a defesa do mercado dos seus interesses.

O mais lamentável é que isso vai se estender para além dos resultados das urnas. Até lá, o clima será de desconfiança e, silenciosamente, cada agente aplicador já tem sua estratégia de mobilidade de capital ao primeiro sinal de perigo. Em casos como estes, a compra de moeda estrangeira é o tipo de ativo mais, líquido, mais imediato que se dispõe e será uma tendência normal o aumento da demanda por dólar.

Pedro Augusto é jornalista e repórter do Jornal VANGUARDA.

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