ARTIGO: “A falta que Eduardo faz”

POR EDSON BARBOSA

Estive ao lado de Eduardo Campos nos últimos dez anos de sua vida. No próximo dia 13 faz um ano que ele se foi. Coordenei a estratégia e as suas ações de marketing e comunicação junto de outros grandes profissionais. Muitas homenagens serão feitas e outras tantas coisas ditas a respeito do seu valor.

Ele poderia ter sido eleito presidente do Brasil ou poderia, ao menos, estar aqui entre nós. Por tudo o que vivi e pelo que aprendi com sua substância política, entusiasmo pelo trabalho em união e competência para avançar, penso, nestes tempos nebulosos, o que estaria pensando, pregando e fazendo.

O Brasil vive o melhor momento em 515 anos de história. Temos informação plena das nossas riquezas e dos nossos problemas.

Somos 200 milhões, cada vez mais incluídos, processo que vem se ampliando em todos os sentidos. Com 1,2 bilhão de habitantes, a Índia, um dos nossos concorrentes diretos, pena com 400 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema.

Temos US$ 368 bilhões em reservas e participação no contexto comercial mundial que nos transportou de escravos comerciais da Inglaterra para construtores e sócios do porto de Mariel, em Cuba, futuro “hub” portuário do Golfo do México.

Temos uma mulher digna e corajosa como presidente da República, legitimamente escolhida pelos brasileiros. Enquanto o patrimonialismo, o egoísmo e a vulgaridade política dominam, ela firma protocolos de investimento com potencial para mais de US$ 500 bilhões no médio prazo com EUA e China.

As instituições nacionais, governo e sociedade evoluem. Polícia, Ministério Público, advocacia e magistratura trabalham em atinência à ordem democrática, com naturalidade impensável há pouco tempo.

Enquanto fazemos ajustes, mesmo que tardiamente, na conduta da nossa economia e política, a Europa vive um clima de pré-guerra por causa de € 320 bilhões de pendura da Grécia. Ora, isso é cafezinho perto do que Alemanha, França, Inglaterra e outros deveriam pagar pelo que devem de hora/aula a Platão.

Temos todas as possibilidades de fazer valer o ativo chamado Brasil e grandes oportunidades estão em nossas mãos, para crescer com justiça social, equilíbrio econômico e modernidade política.

Penso que Eduardo estaria buscando, como sempre dizia, juntar os bons de espírito, mobilizando as pessoas, andando pelo país, conversando com todos, defendendo a ordem democrática, combatendo o anacronismo regimental da velha política, apontando para o futuro.

Tenho convicção, pelo que fez nos sete anos e três meses de governo em Pernambuco, que Eduardo Campos estaria articulando com firmeza os poderes constituídos e a sociedade, para que se perceba a delicadeza da equalização que é necessária à condução administrativa, política e da comunicação.

É como se um ano depois da sua passagem por aqui eu escutasse a sua palavra orientadora, fazendo ecoar em todos os corações a bandeira de sua luta, proclamada cabalisticamente na sua última intervenção, na bancada do Jornal Nacional, na noite de 12 de agosto de 2014: “Não vamos desistir do Brasil”.

OPINIÃO: Apoio ao emprego

Por MAURÍCIO ASSUERO*

Com a taxa de desemprego se aproximando dos dois dígitos, o governo correu para implantar um programa de manutenção do emprego a partir da flexibilização dos salários, ou seja, reduz o salário mediante a redução da jornada de trabalho. Parece uma mediada necessária para combater este fantasma assustador. A ideia é boa, mas peca em alguns princípios, dentre os quais as limitações que o governo impõe para que a empresa seja beneficiada (por exemplo: demonstrar que está em real dificuldade financeira).

Ora, um setor industrial que, notadamente, perde 30% de vendas e mantém seus custos altos, me parece trivial se enquadrar. Assim, antes de flexibilizar as regras do emprego, deveriam ser flexibilizadas as exigências. Faz sentido, por exemplo, exigir que a empresa beneficiária não pode demitir durante um ano, que é o prazo do programa. Agora, essa demonstração de dificuldade deveria ser algo mais livre.

O grande entrave desse programa não é a postura de alguns juízes do trabalho que já emitiram opinião contrária, muito embora haja concordância dos trabalhadores e dos empregados. O gargalo está no fundo que irá complementar o salário do trabalhador. Na verdade, a empresa paga uma parte do salário do trabalhador e o governo complementa as horas reduzidas. O problema é que este recurso vem do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador).

O FAT é um fundo vinculado ao Ministério do Trabalho e Emprego que tem como base de arrecadação o PIS/Pasep. O BNDES toma dinheiro emprestado ao FAT para financiar seus programas e, o mais interessante, é que no bimestre maio-junho de 2014 o FAT arrecadou R$ 2,8 bilhões, enquanto que nestes dois meses de 2015 a arrecadação foi de R$ 1,2 bilhão, ou seja, uma queda de 53,93%.

Como se sabe, o PIS e Cofins são impostos calculados sobre o faturamento das empresas e, diante da crise, tais recursos estão diminuindo e comprometendo o desempenho do fundo. De acordo com a demanda, o governo terá que escolher entre manter a esperança de crescimento econômico via operações do BNDES (que, diga-se de passagem, não tem projetos com capacidade para dinamizar a economia) ou manter os trabalhadores nos seus empregos. A escolha é difícil.

No bojo de tudo isso, o que se lamenta é a forma como o governo está decidindo suas políticas. Ações intempestivas, de curto alcance, longe de uma política estruturadora. Até parece que ninguém se preocupou em analisar a situação do FAT para anunciar o programa e o mais interessante: o programa vem do governo e não do ministério. Dito de outra forma, foi totalmente pensado no âmbito da sustentação econômica do governo (Banco Central, Fazenda e Planejamento). Ao ministro do Trabalho, coube apenas a incumbência de explicar como será.

Nós precisamos torcer, apesar da forma estabanada com que as coisas estão sendo feitas, para que tudo dê certo. Queremos o Brasil crescendo, mas não como banana no carbureto.

*Maurício Assuero é economista e professor da UFPE

OPINIÃO: O consumo de álcool por adolescentes

Por MENELAU JÚNIOR

Cerveja é coisa do passado. Cachaça, vodca, uísque e outras bebidas perigosas tornaram-se a preferência de adolescentes – inclusive dos que têm menos de 18 anos. Exaltado pela sociedade como sinônimo de alegria, o álcool é responsável direto por casos de abandono escolar, acidentes de trânsito e até crimes mais graves. Enfrentar esse desafio exige ações da família, da sociedade e do próprio Estado.

É no âmbito familiar que muitos adolescentes aprendem a consumir bebidas alcoólicas. E sabendo que os jovens entendem mais através de exemplos do que de discursos, é até compreensível que tantos deles comecem a beber tão cedo. Dentro de casa, seus pais bebem e, muitas vezes, chegam a oferecer a bebida. Quando não, são os amigos da escola que iniciam este jovem nos rituais de bebedeira. Com esses exemplos e sem orientação, logo passam a consumir álcool habitualmente. As propagandas também contribuem para isso: a bebida é sempre associada a jovens saudáveis, bonitos e alegres. Beber virou quase uma imposição social para os adolescentes.

Aliás, esse comportamento social de aceitação e estímulo é, sem dúvida alguma, um dos maiores responsáveis pelo aumento do consumo de bebidas alcoólicas – inclusive entre as mulheres. Há pesquisas que mostram que elas já bebem tanto quanto os homens. Hoje, quase ninguém vai para a “balada” para ficar sóbrio. E o exagero na bebida quase sempre leva ao uso de outras drogas – e este, a problemas mais sérios, como queda no rendimento escolar, acidentes de trânsito e, em casos mais graves, assassinatos.

O Estado, claro, regulamenta leis que tentam coibir esse consumo entre os menores. Regulamenta, mas não fiscaliza. Em casas de shows e festas populares, é fácil encontrar até pré-adolescentes consumindo bebidas alcoólicas sem serem importunados. Sem punição eficaz, essa prática se tornou comum – até porque muitas vezes é um maior que compra a bebida para o menor.

Enfrentar o consumo de álcool por adolescentes é, portanto, desafiador. As famílias não têm como proibir, mas podem orientar – principalmente pelo exemplo. Está comprovado: lares desestruturados favorecem o uso de bebidas por adolescentes. As escolas podem, também, ajudar a sociedade nessa luta: aulas de química, biologia e sociologia, por exemplo, podem abordar o tema de forma conjunta, mostrando os perigos e efeitos dessas drogas lícitas no corpo do jovem e no meio social. E o Estado pode ser mais eficiente com seus órgãos fiscalizadores, punindo com rigor aqueles que “fecham os olhos” à idade de quem compra bebida alcoólica. Jovens que bebem menos contribuem mais para o bem-estar social.

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Menelau Júnior é professor de língua portuguesa. Escreve para o blog todos os sábados. E-mail: menelaujr@uol.com.br

Estudantes do Unifavip têm artigo publicado na bibliografia do STJ

Ana Carolina Alves e Felipe Barros de Souza, estudantes de direito do Centro Universitário Vale do Ipojuca (Unifavip/DeVry), tiveram seu artigo “Perspectivas para a conciliação e mediação de conflitos familiares no Novo Código de Processo Civil Brasileiro” escolhido para integrar a seleção bibliográfica do Supremo Tribunal da Justiça (SJT) sobre o Novo Código Processual Civil. Essa bibliografia tem como objetivo nomear as obras mais relevantes acerca do tema, com o intuito de promover com mais facilidade a atualização dos Ministros do STJ, servidores públicos e demais profissionais da área de direito em relação ao Novo Código.

Originado em um grupo de estudos sobre o então projeto do Novo Código Processual Civil, o artigo foi coordenado pelo professor de Direito Venceslau Tavares. “Trata-se de uma distinção que muito nos enaltece e que revela a qualidade de produção científica desenvolvida com apoio do UNIFAVIP”, afirma o pedagogo. O artigo já havia tido repercussão, sendo publicado no livro coordenado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux, “Novas Tendências do Processo Civil – Estudo sobre o projeto do novo CPC”, e na Revista dos Tribunais, em 2014.

“Eu não esperava de forma alguma toda essa repercussão. Nós éramos só alunos, o Felipe agora já se formou e eu estou quase me formado. Não esperava, mas fiquei muito feliz, claro”, diz a estudante Ana Carolina Alves. Ela contou também que a elaboração do artigo foi bem ágil, mas mesmo assim demorou cerca de dois meses para ficar pronto.

Felipe Souza, seu parceiro, disse que eles tentaram pensar em algo que fosse atual e pudesse vir a ser publicado, sem fugir do tema dos direitos fundamentais das relações privadas, no qual o projeto do Novo Código dava ênfase. “Foi muito produtivo e uma grande oportunidade. Eu mesmo sempre tive o sonho de ter algo publicado e esse sonho se realizou”, finalizou o estudante.

OPINIÃO: Comparações

Por MAURÍCIO ASSUERO*

A situação da Grécia não foi um fato instantâneo. Há alguns anos, a economia grega se divide entre a brasa e o espeto. O que ocorreu nos últimos dias, incluindo plebiscito, troca de ministros, limitação dos saques diários a € 60 (R$ 208,80), é fruto de um processo lento e gradual que afetou a economia europeia como um todo, a partir de 2008. Alguns países europeus tiveram enormes dificuldades (Espanha, Portugal, Grécia, França etc.), mas superaram com a ajuda do Banco Central Europeu, que despejou bilhões de euros na região.

Comparativamente, o Brasil está distante da Grécia? Temos algumas semelhanças – por exemplo, a economia combalida – e grandes diferenças, porque, ao contrário da Grécia, não temos quem nos socorra num caso de urgência, além, claro, do FMI (Fundo Monetário Internacional), cujo auxílio seria bom dispensar. O que nos assusta é que nossa situação é preocupante e generalizada e o relacionamento entre Congresso e governo ajuda, dia a dia, a deixar um pouco mais limitada nossa esperança.

Se a gente for analisar as previsões dos economistas, vai se notar que o ponto de interseção é sempre o lado ruim da história, ou seja, a falta de crença no desempenho da economia em 2015 e a baixa expectativa para 2016. Não há indicativo de que 2016 seja melhor. Podemos fazer inúmeras conjeturas, dentre as quais a saída de Dilma da Presidência. Ganharemos alguma coisa com isso? Não se trata apenas de dizer sim ou não. Temos que considerar uma situação econômica complicada sem uma estratégia, ou uma política, que aponte passos para sair do buraco. O governo tem condições de apontar esse caminho? Até o momento, não – e com 7,7% de aprovação, jamais. Agora, o que está ruim pode ficar um pouco pior. Refiro-me à situação dos Estados e municípios e vamos falar de Pernambuco.

O Governo do Estado divulgou o pagamento de uma parcela do 13º salário já para este mês. Ótimo! Por outro lado, alterou o cronograma de pagamentos, ou seja, o salário de julho, que deveria ser pago no final deste mês, vai ser pago em agosto. Está claro que temos um grave problema de caixa e, no caso do governo, fica difícil entender o desequilíbrio, dado que o governador teve nas mãos a chave das finanças do Estado. No mínimo, parece um erro de estratégia. Por outro lado, o Estado e a Prefeitura do Recife montaram uma boa estrutura para renegociar débitos tributários que, segundo as estimativas, poderão chegar à casa dos R$ 100 milhões.

Trata-se de uma ação válida, mas insuficiente. A atração de investimentos externos foi a mola propulsora do crescimento do Estado e, se perder esta linha, ficará muito difícil falarmos de crescimento econômico. O governo precisa centrar seus esforços para consolidar o projeto de voos nacionais e internacionais do grupo Latam (conhecido como hub), que é uma junção da TAM com a chinela LAN. Se conseguir, Pernambuco terá um instrumento formidável para voltar a crescer. Senão, vai continuar em busca de inadimplentes dos impostos.

*Maurício Assuero é economista e professor da UFPE.

OPINIÃO: Crases no comércio

Por MENELAU JÚNIOR

Hoje quero conversar com vocês sobre algumas frases que encontramos no comércio. Em muitas delas, o acento grave (mais conhecido como “crase”) aparece usado de forma equivocada. Vamos entender por quê.

Primeiramente, é preciso saber que o acento grave indica a ocorrência de crase (palavra grega que significa “fusão”). No caso, é a presença de “a” + “a” que exige o uso do acento. Mas, nos estabelecimentos comerciais, isso não costuma ser respeitado.

“Comece à pagar à partir de setembro”. Eis aí um dos casos mais comuns: “crase” antes de verbos (no caso, “pagar” e “partir”). Ora, se compreendemos que não se usa o artigo “a” antes de verbos, não é possível ocorrer crase nessa situação. Portanto, senhores lojistas, nada de colocar o acento grave antes de um verbo, certo?

Outro caso comum é na expressão “à prazo”. O problema agora é que “prazo” é palavra masculina. Por isso, diante dela não pode existir o artigo “a”, apenas a preposição “a”. E se não existem os dois “AA”, não existe crase!!!

Mais uma expressão que traz uso indevido do acento é “de segunda à sexta” ou “de segunda à sábado”. No segundo caso, é fácil saber por quê: “sábado” é palavra masculina – e diante de palavras masculinas normalmente não usamos o acento. Já no primeiro, é preciso entender uma relação de paralelismo: como não existe artigo diante de “segunda” (DE segunda), também não existe diante de sexta (que, nesse caso, é tomada de forma genérica, é qualquer sexta-feira). Por isso, mais uma vez não temos “crase”.

Para terminar, já observou com muita gente, após um aviso, assina como “À Direção”? Não sei quem inventou essa crase aí…

O assunto, claro, precisaria de bem mais linhas para ser explicado de forma clara. O importante, contudo, é que todos tenham cuidado ao empregar esse acento. Honestamente, é melhor errar pela ausência do que pelo excesso. Na dúvida, não use o acento grave. A probabilidade de ele não ser usado é muito maior.

Até a próxima semana.

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Menelau Júnior é professor de língua portuguesa. Escreve para o blog todos os sábados. E-mail: menelaujr@uol.com.br

Em artigo, Marina Silva defende afastamento de denunciados

Do Estadão Conteúdo

Terceira candidata mais votada na última eleição presidencial, a ex-ministra Marina Silva defendeu, em artigo, que políticos que forem formalmente denunciados pela Procuradoria-Geral da República se afastem dos cargos. Para ela, o perigo é que políticos usem seus poderes para interferir nas investigações.

“Devemos exigir o afastamento dos que ocupam cargos cujos poderes possam interferir nas decisões. Mas desde já precisamos estar atentos contra qualquer tentativa de sabotagem”, escreveu Marina em artigo enviado ao blog do jornalista Matheus Leitão, do G1.

A ex-senadora critica o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, a quem acusa de usar a manipulação da crise para aumentar seu poder. Segundo Marina, por isso “é normal que ele agora tente explicar as denúncias de corrupção que recebe como sendo manipulação dos outros”. No entanto, Marina aponta que os que gritam “fora Cunha” querem desviar atenção dos gritos de “fora Dilma”.

Na avaliação de Marina, o Congresso divide com o governo a responsabilidade pela crise. “Neste momento, deveria predominar entre eles (parlamentares) a consciência de que o Poder Legislativo é maior que seus membros, mesmo aqueles que ocupam cargos de direção”, disse.

A candidata do PSB nas eleições de 2014 pede que, “ao menos em nome do bom senso”, os denunciados evitem “mexer mais ainda num equilíbrio institucional que já está precário, não usando poderes públicos como navios de guerra onde os litigantes disparam contra os outros”.

No texto, Marina defende a ação da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça na Lava Jato e argumenta que o Brasil é capaz de sair do momento atual para outro momento positivo, assim como na crise que culminou no impeachment de Fernando Collor. “O que está em curso no Brasil não é apenas a desconstrução de um sistema político que revela, a cada dia, sua falência. Há também uma lenta construção da democracia e de instituições independentes e fortes, instrumentos de navegação em meio às crises”, argumenta.

No texto, a ex-senadora mantém a esperança de que os culpados sejam punidos. “Se temos que respeitar as instituições que eles, infelizmente, dirigem tão mal, e respeitar a população que lhes confiou seu voto, temos também que manter viva nossa esperança de que a Justiça será feita e os erros serão punidos”, escreveu.

OPINIÃO: A Grécia é aqui

Por SAMUEL PESSÔA*

Segundo reportagem de Toni Sciarretta publicada neste jornal na semana passada, o Brasil está longe da situação da Grécia. De fato, do ponto de vista de liquidez, o governo grego na prática quebrou, como afirmou o repórter.

Antes de qualquer comparação, é importante frisar que o bem-estar na Grécia é superior ao brasileiro por qualquer critério. Depois de seguidos anos de crise profunda, o PIB per capita grego é 60% maior do que o nosso e a desigualdade é menor.

Do ponto de vista fiscal, a Grécia apresentou no ano passado superavit primário pouco maior do que zero, melhor, portanto, do que nosso deficit de 0,6% do PIB.

O grande problema por lá é o enorme endividamento do setor público, de 180% do PIB, ante nosso endividamento bem menor, de 65%.

No entanto, o custo de rolagem da dívida pública por aqui é bem maior. Além disso, certamente, se houver um esforço de reformas que reduzam os problemas do setor público grego, haverá espaço de negociação para reduzir muito os juros pagos pelo governo do país.

Ou seja, o fato de a Grécia ser um pequeno país de uma união monetária -o PIB grego é da ordem de 2% do PIB da zona do euro- torna o tamanho do problema muito menor do que o nosso. Estamos isolados e teremos que encontrar por nós mesmos uma solução para nosso desequilíbrio fiscal estrutural. Se a Grécia fizer a lição de casa que a união monetária exige, será resgatada.

Segundo dados da OCDE, em 2011 o gasto público grego com aposentadorias e pensões era de 14,5% do PIB, não muito maior do que os 12% que gastamos. A situação é ainda pior, pois temos pouco menos de 10% da população acima de 60 anos, enquanto a Grécia tem 20%. Ou seja, nosso gasto previdenciário relativamente à pirâmide populacional já é muito maior do que o grego!

Diferentemente de nós, a Grécia abriu mão desse instrumento quando decidiu se juntar à zona do euro. Mas é sempre importante lembrar que ajuste de desequilíbrio fiscal por meio de forte desvalorização do câmbio produz aceleração inflacionária e corte dos salários, aposentadorias e pensões.

Exatamente por esse motivo o primeiro-ministro grego, após ter tido a autorização dos cidadãos para não fazer novo acordo, o que ia gerar insolvência e no limite saída da união monetária e a recriação da dracma, decidiu assinar acordo ainda mais duro do que o anterior. Considerou que o impacto social da inflação e da desorganização da economia -consequência da recriação da moeda grega- representa custo ainda maior do que aceitar as condições da “troica” (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI).

Um tema que tem sido pouco observado é a diferença de comportamento entre aposentados e funcionários públicos, mais favoráveis a um acordo com a “troica”, e estudantes e jovens, mais vocais contra as medidas de austeridade e, por consequência, mais desejosos de uma saída da Grécia do euro e da recriação da moeda grega.

Os jovens e os estudantes são os mais afetados pelo desemprego, custo maior da estratégia de ajustamento dentro da união monetária. Os servidores públicos e os aposentados perderiam mais em uma eventual saída do euro, pois seus salários e aposentadorias seriam fortemente reduzidos com a recriação da dracma.

Já no Brasil, se nada for feito, caminharemos para crise fiscal profunda e os resultados sociais por aqui serão ainda piores do que aqueles enfrentados pela população grega nos últimos anos.

* É formado em física e doutor em economia pela USP e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da FGV. Escreve para a Folha de S. Paulo

OPINIÃO: Parque 18 de Maio

Por MAURÍCIO ASSUERO*

Já algum tempo se discute o deslocamento da Feira de Caruaru do Parque 18 de Maio para outro local, possivelmente às margens da BR-104. A Câmara votaria a proposta da mudança semana passada, mas por uma questão de insegurança jurídica adiou a votação. O que envolve esta mudança é muito mais do que uma questão jurídica. É para salvaguardar o patrimônio que a Feira de Caruaru representa. O que se espera é que ao longo das discussões tenha sido feita uma avaliação econômica criteriosa dos impactos (positivos e negativos) dessa mudança. Vou citar dois casos semelhantes. O primeiro foi o ordenamento dado pelo Recife ao comércio ambulante que transformava a cidade num verdadeiro mercado árabe (com todo respeito aos árabes).

Algumas “soluções” foram apresentadas e, após muitas discussões, optou-se pela criação de um espaço que ocupa a av. Dantas Barreto, no centro da cidade, chamado de camelódromo. A estrutura física comportava lojas no térreo e no primeiro andar e o que se observou ao longo do tempo foi um esvaziamento do espaço, prostituição etc. Vendedores localizados mais para o sentido da Igreja Nossa Senhora do Carmo estão melhores situados do que aqueles que ficam mais próximo da praça Sérgio Loreto.

Independentemente da localização, o pessoal do primeiro andar é menos visitado do que as lojas do térreo. A fixação acaba criando uma limitação terrível para o ambulante (veja a contradição: fixar um ambulante!).

O segundo caso foi uma decisão tomada no sentido de inversão do trânsito da av. Conselheiro Aguiar, no bairro de Boa Viagem. Esta via era de mão dupla e, com o intuito de melhorar o fluxo de veículos, fez-se a inversão, deixando a via de mão única no sentido subúrbio-cidade. A consequência foi um esvaziamento total das lojas comerciais que aproveitavam o público que vinha para casa e que optava por fazer compras ali. Este exemplo só corrobora o fato de que localização é fundamental quando se pretende implantar um projeto.

O Parque 18 de Maio tem visíveis problemas de estrutura. Seu tamanho ficou pequeno para a dimensão do patrimônio que abriga. A mudança é desejo de muitos, mas qual o sentimento da população? Até que ponto uma pessoa que trabalha no Centro e que, num momento breve poderia se deslocar até o 18 de Maio, terá essa pré-disposição de enfrentar o trânsito para ir até a BR-104? Diante das discussões, fica o desejo de que todas as variáveis pertinentes foram devidamente exploradas. E que o perfil do comprador, esperamos, tenha sido avaliado muito bem (uma boa metodologia emprega seria uma adequação da disposição a pagar. Por exemplo: quanto você estaria disposto a me pagar para que eu não fume perto de você?).

Finalmente, outra questão é a avaliação do uso futuro. Se há uma necessidade de mudança em função do problema da mobilidade, por exemplo, qual utilização futura minorará os problemas de trânsito? O lado de maior destaque em tudo isso é o patrimônio que a feira representa. Há de se preservar este patrimônio em qualquer que seja o cenário escolhido.

*Maurício Assuero é economista e professor da UFPE

OPINIÃO: Distante dos fatos

Por MAURÍCIO ASSUERO*

Se a instabilidade econômica já é uma realidade, devemos nos preparar para vivenciar um momento de instabilidade política. As ações do governo afetam diretamente a economia. A Bolsa cai ou sobe se o presidente “espirrar”, quanto mais se o presidente está ameaçado de impedimento ou de renúncia. As esperanças do Brasil para sair da crise econômica se apoiam em dois pilares (isso é que incomoda mesmo: temos apenas dois pilares!), que são o aumento de exportações e o sucesso do ajuste fiscal.
O ajuste fiscal implica, necessariamente, num esforço supremo da sociedade em suportar juros altos, desemprego em alta, crescimento econômico baixo e inflação alta.

Em vários momentos aqui, já alertamos que a inflação real difere da inflação oficial. O governo trabalha com uma inflação de 9% ao ano, no entanto, a inflação de baixa renda já está em 9,5% ao ano. Isso ocorre porque as pessoas de renda alta têm uma variabilidade de consumo muito diferente daqueles de renda baixa. Quem ganha um salário mínimo, por exemplo, tem pouca flexibilidade para formar sua cesta de consumo e por isso acaba penalizado. No fundo, se você guardou sua nota de compras do supermercado dos meses anteriores, basta comparar os preços agora.

O controle da inflação é feito, geralmente, através do controle da oferta de moeda. Reduzindo a oferta de moeda (entenda-se os meios de pagamentos), a taxa de juros aumenta e as pessoas deixam de consumir para aplicar em títulos. Com isso, os preços cairão. Outra forma, mais cruel, é através do aumento do desemprego. Se a renda cai, o consumo cai e os preços seguem o mesmo movimento. É uma forma cruel de controlar a inflação e o mais chocante é que o governo está fazendo as duas coisas.

Estamos falando de pessoas com responsabilidades (colégio, aluguel, casa própria etc.) e, quando essas pessoas se tornam inadimplentes, obviamente que elas afetam as demais empresas. Por exemplo: a indústria de papel que faz embalagens está demitindo pessoas porque a demanda pelos seus produtos caiu, ou seja, como as vendas caíram, os comerciantes deixam de demandar tais produtos. A cadeia produtiva é afetada como um todo.

Aumentar as exportações tem como premissa a competitividade dos preços dos nossos produtos em relação ao mercado internacional. Então a forma de aumentar essa competitividade é desvalorizando a moeda. Com isso, o dólar fica mais caro para que os brasileiros se aventurem em compras no exterior e isso favorece a produção doméstica. Tem o inconveniente de comprometer as empresas que importam matérias-primas ou que tenham endividamento em moeda estrangeira.

O maior problema de tudo isso é a situação política. O governo não tem mais qualquer condição de mobilizar a sociedade em defesa dos seus propósitos. A aprovação da presidente Dilma chegou a 9% e todas as forças politicas, inclusive as que estão na base aliada, estão trabalhando para cortar as cordas do balanço que embala o governo. Qualquer um que tente salvar essa situação precisa estar disposto a esclarecer, ponto a ponto, todos os desmandos que geraram este nível de corrupção muito visto em países ditatoriais, não numa democracia como a nossa.

*Maurício Assuero é economista e professor da UFPE