ARTIGO — Caruaru, Violência e Apatia. Um faroeste Caboclo

Por Mário Benning

Ficou comum, banal, conversar sobre violência em Caruaru, tratamos de forma corriqueira e com naturalidade temas que vão de: furtos, assaltos, assassinatos e agressões. A violência incorporou-se ao nosso cotidiano, fazendo parte do nosso dia a dia. E o pior é que, apesar da situação de calamidade em que estamos, abordamos o assunto com uma tranquilidade absurda.

Achamos normal, transformar nossas casas em fortalezas com: cercas elétricas, grades, cães de guarda e segurança privada. Elaboramos verdadeiras táticas de guerrilha para sairmos ou chegarmos em nossas casas. Dar uma volta, ver se não tem ninguém estranho perto, ou pior, se há uma moto nos seguindo. Perdemos o direito de andar tranquilamente pelas ruas. E nossos filhos nunca terão as experiências que nós tivemos em nossas infâncias, de brincar na vizinhança, entre outras tantas.

Valeria a pena pesquisar, o quanto o sentimento do medo acelerou a construção de condomínios fechados e a verticalização da cidade. Já que esses equipamentos são considerados mais seguros que as casas.

Aceitamos, com resignação, que podemos ser assaltados ou furtados a qualquer momento.

Porém, o maior exemplo do quanto nós nos acomodamos, ou nos acostumamos a viver numa situação atípica ou irreal, é o número de homicídios cometidos na cidade. O crime mais grave, o que rompe com todo e qualquer limite de vida civilizada, revelando o quão bárbara é uma sociedade.

Achamos normal que em 2014 tenhamos tido 137 homicídios, e o aumento para 204 em 2015. E comentamos com uma mórbida naturalidade, para não dizer satisfação; que com certeza este ano, 2016, ultrapassaremos esse número. Como se estivéssemos numa competição surreal, ou se esse fosse um título a ser conquistado, como o de sermos a Capital do Forró.

Para termos uma ideia do quão absurda é a nossa situação, basta usar a metodologia internacional, aplicada para medir o índice de violência. Não se compara o número bruto de mortes. Afinal, cinco homicídios numa população de 1 milhão de habitante é bem diferente dessas mesmas cinco mortes numa população de dez mil habitantes. Sendo assim comparamos, ou calculamos, o número de assassinatos a cada cem mil habitantes.

Com isso, mesuramos, proporcionalmente, o quão violenta é uma localidade. O Brasil tem índices epidêmicos de homicídios, somos campeões mundiais em números absolutos. Com quase 60 mil mortes por ano, num universo de 200 milhões de habitantes. Países com populações semelhantes tem resultados bem melhores: os EUA tem, cerca de, 17 mil homicídios ano, a Indonésia 19 mil e no Japão menos de 1 mil por ano. Calculando o nosso índice de homicídios é de 29 a cada cem mil, o que nos torna 11º primeiro país mais violento do mundo.

E se aplicarmos essa metodologia internacional em Caruaru?

Bem, levando em conta o número fornecido pela SDS/PE tivemos 204 homicídios em Caruaru, num universo de 347. 088 habitantes. O que resulta num índice de 58,77. Bem acima da média nacional, da de Recife com 35,83, e de Petrolina, uma cidade no mesmo Estado e com população semelhante, que foi de 39,83. Caruaru, com esse índice, estaria entre as cinquenta cidades mais violentas do Brasil, se esse patamar for mantido.

Porém essa fatura, essa responsabilidade, tem que ser dividida. Existem ações e omissões para todos os níveis de Governo, do Federal ao Municipal.

A ausência de uma política nacional de segurança, uma maior fiscalização das fronteiras, a articulação dos sistemas de segurança em nível nacional, a unificação das duas polícias, podem ser colocadas na conta da União, entre outras.

Um efetivo insuficiente, desmotivado e desaparelhado pode ser colocado na conta do Governo Estadual, basta ver as condições oferecidas a PM para trabalharem no São João de Caruaru. Ou para que a Civil investigue e forneça os dados necessários as ações de inteligência e a finalização dos inquéritos.

E,finalmente, a gestão municipal. Embora, à obrigação constitucional de ações repressoras e de policiamento ostensivo caibam essencialmente ao Governo Estadual. A PMC pode, dentro da sua esfera de influência, agir e muito. Nada justifica a atual apatia da gestão municipal diante de índices absurdos como esses. A ausência de uma política municipal de segurança, é de um silêncio ensurdecedor .

Nesse contexto, cabe ao Município oferecer o básico, o elementar, como uma iluminação pública eficiente na cidade. Algo que comprovadamente tem um impacto nos índices de violência, e que está sob a responsabilidade da Prefeitura. E que é alvo de queixas recorrentes e de um descaso injustificável da atual administração.

Bem como ter uma presença efetiva dos serviços públicos na periferia, expandindo de fato à cidadania. Garantindo o acesso universal a: infraestrutura, limpeza, lazer e escolas de tempo integral. Bem como, equipar e treinar a Guarda Municipal nos termos da Lei 13022 de Agosto de 2014. São ações que competem a Prefeitura e que atenuariam o caos que estamos vivendo. Evitando que ocorram situações ,como as que foram denunciadas, com equipamentos que deveriam estar colaborando com a segurança pública enferrujando em depósitos.

Não é hora de fugir da realidade, ou querer naturalizar ou justificar o injustificável. Há uma crise de segurança municipal, e está na hora das nossas lideranças se posicionarem. Afinal com disse Jung: “Contra fatos não há argumentos.” É chegada a hora das ações.

Prof Mário Benning, é Mestre em Geografia e Professor do IFPE Caruaru.

Pedro Augusto é jornalista e repórter do Jornal VANGUARDA.

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