ARTIGO — Incentivos

Maurício Assuero

Precisamos reconhecer que o governo Temer teve um momento de lucidez: a liberação de recursos presos do FGTS, recursos do PIS-PASEP, que só era permitido sacar aposentados acima de 60 anos e a antecipação de uma parcela do 13º salário para os aposentados agora em agosto. Fora isso, foi um desastre total.

Tais medidas deveriam favorecer, de alguma forma, a economia porque representam recursos novos que poderiam ser aplicados no consumo e, com isso, dinamizar a economia. O fato é que parte da população beneficiada usará tais recursos para pagamento de dívidas e com isso, provavelmente, a moeda não circulará na velocidade desejada. Daí, uma medida tão salutar acaba sendo engolida pela realidade dolorida da economia cambaleante. Um detalhe angustiante é que a população de aposentados, beneficiados diretos com a liberação desses recursos, está com nível de endividamento crescente. Mais ainda: registra-se que o número de pessoas com 60 anos ou mais que estão inadimplentes com suas obrigações cresceu, 15%, entre 2017 e 2018.

Isso preocupa bastante porque em algumas famílias é a renda da aposentadoria a base de sustentação da família. Cidades interioranas vivem em função das transferências governamentais. Mas, o que tem se observado é que a renda da aposentadoria não tem acompanhado as necessidades básicas e sobrevivência. O que reforça esta questão é o fato da inflação nessa faixa de idade que no 2º trimestre que teve uma alta de 1,41% em relação ao 1º trimestre fechando o semestre em 2,3%. Persistindo essa tendência fecharia o ano em 4,65%. Uma das explicações mais imediatas para isso é o gasto com remédios.

Estamos agora no início do segundo semestre com as perspectivas mais acentuadas na direção do sufoco econômico. Os maiores incentivos que temos neste período são as festas do final de ano e até que o cenário político se desenhe de forma mais definitiva, a economia vai continuar no compasso de espera. Note-se, por exemplo, que o COPOM – Conselho de Política Monetária tende a manter a taxa de juros em 6,5% ao ano, todavia, mesmo que houvesse redução em 0,5 ponto percentual, o impacto na economia seria ínfimo. A conta do governo é simples: se a taxa de juro cair, então não faz sentido aplicar em títulos. Seria coerente aumentar o consumo, mas tal transferência não se faz porque os 13 milhões de desempregados continuam fazendo a grande diferença nesse país. Pena que o governo não perceba essa dor. Passado a euforia dos saques, voltaremos a nos cobrir de esperanças para fecharmos nossas contas.

Pedro Augusto é jornalista e repórter do Jornal VANGUARDA.

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