Silêncio no Sertão: Os jumentos que construíram o Nordeste estão desaparecendo

Por Marcelo Rodrigues

No vasto cenário do semiárido nordestino, uma figura familiar há séculos parece caminhar silenciosamente rumo à sua própria derrocada. Os jumentos, animais historicamente entrelaçados à cultura e economia da região, enfrentam hoje o risco concreto de desaparecerem. Imagine o Nordeste sem o icônico “ió-ió” ecoando pelas caatingas, sem os pequenos comboios que por gerações carregaram esperanças e sonhos pelos caminhos empoeirados do sertão.

A ameaça que pairam sobre esses animais é múltipla, vinda tanto de interesses externos quanto de uma paradoxal desconsideração interna. De um lado, o interesse da China por carne de jumento para a medicina tradicional tem pressionado as populações desses animais mundo afora, incluindo no Brasil. De outro, um desinteresse crescente entre os nordestinos, que outrora foram dependentes desses burros para trabalho e sobrevivência, mas agora os consideram onerosos devido ao seu alto consumo de alimentos e ao avanço da mecanização no campo, que reduziu a dependência desses animais como força motriz.

Essa conjunção de fatores desenha um futuro sombrio para esses animais que, apesar de sua importância histórica, enfrentam agora o risco de extinção. Historicamente, os jumentos foram cruciais para a economia nordestina, servindo não apenas como meio de transporte, mas também como força de tração em atividades agrícolas e de carga. Contudo, com o advento de meios de locomoção mais rápidos e a mecanização do trabalho rural, esses animais perderam sua função primordial, tornando-se, muitas vezes, um encargo para os pequenos proprietários rurais devido ao seu alto custo de manutenção, principalmente em períodos de seca prolongada, quando o pasto escasseia.

Para evitar que esses símbolos da resistência nordestina desapareçam, é preciso agir em várias direções e em uma multiplicidade de horizontes temporais. Inicialmente, é essencial que haja uma mobilização para a valorização desses animais, destacando sua contribuição para a história e a cultura locais. Campanhas de conscientização podem desempenhar um papel vital aqui, mostrando o papel dos jumentos na identidade nordestina e promovendo a empatia com o destino desses animais junto a população mais nova. Ademais, programas de apoio aos criadores de jumentos, incluindo linhas de crédito para a manutenção e a melhoria das condições de criação, ajudariam a tornar a criação desses animais mais viável economicamente e em diferentes escalas.

A médio prazo, é crucial desenvolver programas de melhoramento genético e manejo sustentável, que aumentem a eficiência da criação de jumentos, tornando-a menos dependente de grandes áreas de pasto e reduzindo o impacto ambiental. Iniciativas de ecoturismo também podem ser implementadas, permitindo que os criadores obtenham renda adicional ao mostrar seus animais e a cultura a eles associada para pessoas de fora da comunidade, o que ajuda a tornar a criação de jumentos mais viável economicamente. Isso ajudaria a manter viva a criação desses animais e a cultura a eles ligada.

Por fim, é fundamental que os governos e as ONGs trabalhem juntos na implementação de políticas públicas e projetos específicos para a proteção desses animais, que incluam tanto a regulamentação do abate quanto o apoio direto àqueles que os criam. Leis mais rígidas contra o tráfico e o abate clandestino de jumentos, combinadas com programas de incentivo à sua preservação, podem mudar o curso atual. A fiscalização e a gestão adequadas desses animais são primordiais para coibir o comércio ilegal, especialmente aquele motivado por interesses internacionais, como o mercado de carne para exportação.

A extinção dos jumentos nordestinos não é uma fatalidade anunciada. Ainda estamos a tempo de reverter esse cenário por intermédio de ações coordenadas e compromissadas. O relógio da história não pode parar agora – cada dia perdido representa gerações de memórias que podem se esvair para sempre. É preciso que a sociedade civil, os criadores e as autoridades se unam em torno dessa questão, reconhecendo a importância desses animais não só como parte do patrimônio cultural, mas também como seres que contribuem para a biodiversidade e a economia locais. Somente assim poderemos garantir que esses animais continuem a fazer parte do rico mosaico cultural e ambiental do Nordeste brasileiro.

Marcelo Rodrigues, é advogado especialista em direito ambiental e urbanístico, consultor técnico em sustentabilidade da Prefeitura Municipal de Caruaru, ex-Secretário de Meio Ambiente do Recife.