
Por Josias de Souza – UOL
Mal comparando, a elaboração de uma política de combate ao crime organizado é simples como a preparação de um misto-quente. O sanduíche se faz com queijo, presunto e duas torradas. Para combater as facções, os ingredientes são união, planejamento e duas esferas de governo: o federal e os estaduais.
No Rio, a megaoperação desta terça-feira contra o Comando Vermelho produziu mais de cem cadáveres. Foi a ação policial mais letal da história do estado. Dois meses antes, seguindo a lógica do misto-quente, uma força-tarefa com autoridades de Brasília e de oito estados deflagrou um cerco ao PCC sem dar um mísero tiro.
O governador Cláudio Castro celebrou seu fracasso estalando de orgulho nas redes sociais. Publicou uma foto com dezenas de armas. Escreveu uma legenda panfletária: “O Rio termina o dia com uma imagem que fala por si: mais de 100 fuzis apreendidos pelas polícias Civil e Militar. Depois disso, alguém ainda duvida que nossas forças de segurança estão fazendo sua parte?”.
No caso do PCC, deu-se preferência à apreensão do arsenal financeiro. Foram mapeados 40 fundos de investimento ligados ao crime. Movimentaram R$ 52 bilhões em quatro anos. A Receita lavrou R$ 8,4 bilhões em autuações fiscais. A Justiça bloqueou R$ 1,2 bilhão em ativos. Foram sequestrados 192 imóveis e duas lanchas. Apreenderam-se 141 veículos.
As polícias de Cláudio Castro realizaram batidas nos complexos do Alemão e da Penha. A Polícia Federal fez incursões em endereços elegantes, incluindo escritórios de prósperas corretoras. Em São Paulo, o PCC amargou o fechamento de algumas de suas lavanderias. No Rio, o Comando Vermelho fechou a cidade.
A comparação entre as duas megaoperações reforça a noção de que o combate ao crime organizado é mais eficiente na Faria Lima do que nas favelas. Alega-se que a crise do Rio é diferente, pois envolve a reocupação de territórios ocupados pelo crime. Trata-se de uma meia verdade, pois o poder real do tráfico e das milícias não mora no morro, mas nas coberturas.
