Por Marcelo Rodrigues
Sabe aquele trecho da calçada que some do nada? Você caminha de boa e, de repente, o passeio vira rampa de garagem, ilha de cimento ou simplesmente nada. Acabou. Quem segue a pé que se vire, que desça para a rua e dispute espaço com toneladas de metal a cinquenta por hora. É assim, todos os dias, em praticamente qualquer cidade brasileira que se diga desenvolvida. A calçada não é tratada como infraestrutura essencial; é uma benesse mal administrada, um espaço a reboque do projeto viário, quando deveria ser a espinha dorsal da mobilidade.
Mas o que, afinal, transforma uma calçada em boa para quem anda? Largura é o básico, e não estou falando de faixa larga de aeroporto. Basta que duas pessoas consigam se cruzar sem encostar o ombro uma na outra, sem ter que dar meia-volta por causa de um poste engolindo o espaço. O piso precisa ser plano, contínuo, sem aquelas armadilhas que quebram tornozelos e atiram cadeirantes para a pista sem cerimônia. Arborização faz falta, porque sombra não é frescura quando o sol bate a quarenta graus e o asfalto solta vapor quente no rosto. E obstáculos? Postes no meio do caminho, placas espetadas como se o pedestre fosse invisível, lixeiras, mesas de bar, tapumes, placas de obra e, claro, carros estacionados em cima do passeio público como se estivessem em seu quintal privativo. A calçada vira depósito, garagem improvisada, extensão do comércio, palco de reforma. O pedestre vira intruso na própria cidade, obrigado a fazer slalom entre barreiras que ninguém autorizou, mas todo mundo aceita de bom grado porque, afinal, “quem anda a pé não gera trânsito”, como se mobilidade fosse sinônimo exclusivo de rodovia e asfalto.
Agora, uma pergunta que deveria incomodar muito mais gente: por que os postes de iluminação pública jogam quase toda a luz para a via dos carros? Sério. Pare e observe na próxima esquina. A laranjada amarelada do vapor de sódio — ou o branco frio do LED moderno — banha generosamente o asfalto onde já circulam veículos equipados com farol alto, farol baixo, farol de neblina, lanterna traseira de LED e, às vezes, até xenon ilegal. O carro é uma ópera de luzes próprias, um show de iluminação particular que custou caro ao dono. O pedestre, não. O pedestre tem o que? A esperança de não torcer o pé no buraco que o poste não iluminou, e a sorte de não cruzar com alguém de más intenções no escuro, parado sob a única sombra do poste que deveria protegê-lo.
Iluminar a rua e deixar a calçada na penumbra é um erro técnico grotesco — ou uma escolha política descarada — que revela quem manda de verdade no projeto urbano. A rua é o espaço sagrado do automóvel; a calçada, uma sobra mal iluminada onde você caminha por conta e risco. Na escuridão, quem anda fica vulnerável a assaltos, a buracos, a desníveis, a postes que aparecem do nada como inimigos silenciosos esperando a canela descuidada. E o pior: pagamos por isso com nossos impostos, mês após mês. A conta de iluminação pública sai do bolso de todos, inclusive do cidadão que não tem carro, para dar mais segurança visual a quem já tem quatro pneus, airbag, câmera de ré e um volante. É quase um subsídio invertido: quem menos precisa de luz pública é quem mais a recebe de bandeja, enquanto quem depende dela fica no escuro, tropeçando e rezando.
Uma calçada decente deveria ser prioridade absoluta de qualquer gestor público que se preze. Ela é o primeiro e o último trecho de toda viagem urbana: você sai de casa a pé, pega o ônibus, o metrô, talvez um aplicativo, mas sempre volta a pisar no chão da cidade. Se esse chão é quebrado, estreito, escuro e hostil, a cidade inteira se revela hostil. Não existe cidade inteligente, cidade sustentável ou cidade humana sem calçada de qualidade. Não existe urbanismo de verdade onde o pedestre é tratado como coadjuvante inconveniente que atrapalha o fluxo dos veículos e merece apenas o que sobra do orçamento e da atenção dos planejadores.
O mínimo que se poderia exigir é inverter os holofotes — literalmente. Deixe o carro com seus faróis modernos, seus sensores de luz e seu farol de xenon. O pedestre precisa enxergar onde pisa, precisa sentir que o espaço é dele, que a cidade o acolhe e não o expulsa para a beirada como um mendigo envergonhado. E, enquanto isso não acontece, a gente segue desviando de poste, pulando poça, descendo para a rua ao relento e torcendo para chegar inteiro em casa. Porque, no final das contas, a calçada até é nossa. Só que o dono da cidade ainda pensa que ela é dele, e a luz que pagamos com tanto sacrifício confirma isso todas as noites, espetacularmente, sobre o capô dos carros.
Sabe aquele trecho da calçada que some do nada? Você caminha de boa e, de repente, o passeio vira rampa de garagem, ilha de cimento ou simplesmente nada. Acabou. Quem segue a pé que se vire, que desça para a rua e dispute espaço com toneladas de metal a cinquenta por hora. É assim, todos os dias, em praticamente qualquer cidade brasileira que se diga desenvolvida. A calçada não é tratada como infraestrutura essencial; é uma benesse mal administrada, um espaço a reboque do projeto viário, quando deveria ser a espinha dorsal da mobilidade.
Mas o que, afinal, transforma uma calçada em boa para quem anda? Largura é o básico, e não estou falando de faixa larga de aeroporto. Basta que duas pessoas consigam se cruzar sem encostar o ombro uma na outra, sem ter que dar meia-volta por causa de um poste engolindo o espaço. O piso precisa ser plano, contínuo, sem aquelas armadilhas que quebram tornozelos e atiram cadeirantes para a pista sem cerimônia. Arborização faz falta, porque sombra não é frescura quando o sol bate a quarenta graus e o asfalto solta vapor quente no rosto. E obstáculos? Postes no meio do caminho, placas espetadas como se o pedestre fosse invisível, lixeiras, mesas de bar, tapumes, placas de obra e, claro, carros estacionados em cima do passeio público como se estivessem em seu quintal privativo. A calçada vira depósito, garagem improvisada, extensão do comércio, palco de reforma. O pedestre vira intruso na própria cidade, obrigado a fazer slalom entre barreiras que ninguém autorizou, mas todo mundo aceita de bom grado porque, afinal, “quem anda a pé não gera trânsito”, como se mobilidade fosse sinônimo exclusivo de rodovia e asfalto.
Agora, uma pergunta que deveria incomodar muito mais gente: por que os postes de iluminação pública jogam quase toda a luz para a via dos carros? Sério. Pare e observe na próxima esquina. A laranjada amarelada do vapor de sódio — ou o branco frio do LED moderno — banha generosamente o asfalto onde já circulam veículos equipados com farol alto, farol baixo, farol de neblina, lanterna traseira de LED e, às vezes, até xenon ilegal. O carro é uma ópera de luzes próprias, um show de iluminação particular que custou caro ao dono. O pedestre, não. O pedestre tem o que? A esperança de não torcer o pé no buraco que o poste não iluminou, e a sorte de não cruzar com alguém de más intenções no escuro, parado sob a única sombra do poste que deveria protegê-lo.
Iluminar a rua e deixar a calçada na penumbra é um erro técnico grotesco — ou uma escolha política descarada — que revela quem manda de verdade no projeto urbano. A rua é o espaço sagrado do automóvel; a calçada, uma sobra mal iluminada onde você caminha por conta e risco. Na escuridão, quem anda fica vulnerável a assaltos, a buracos, a desníveis, a postes que aparecem do nada como inimigos silenciosos esperando a canela descuidada. E o pior: pagamos por isso com nossos impostos, mês após mês. A conta de iluminação pública sai do bolso de todos, inclusive do cidadão que não tem carro, para dar mais segurança visual a quem já tem quatro pneus, airbag, câmera de ré e um volante. É quase um subsídio invertido: quem menos precisa de luz pública é quem mais a recebe de bandeja, enquanto quem depende dela fica no escuro, tropeçando e rezando.
Uma calçada decente deveria ser prioridade absoluta de qualquer gestor público que se preze. Ela é o primeiro e o último trecho de toda viagem urbana: você sai de casa a pé, pega o ônibus, o metrô, talvez um aplicativo, mas sempre volta a pisar no chão da cidade. Se esse chão é quebrado, estreito, escuro e hostil, a cidade inteira se revela hostil. Não existe cidade inteligente, cidade sustentável ou cidade humana sem calçada de qualidade. Não existe urbanismo de verdade onde o pedestre é tratado como coadjuvante inconveniente que atrapalha o fluxo dos veículos e merece apenas o que sobra do orçamento e da atenção dos planejadores.
O mínimo que se poderia exigir é inverter os holofotes — literalmente. Deixe o carro com seus faróis modernos, seus sensores de luz e seu farol de xenon. O pedestre precisa enxergar onde pisa, precisa sentir que o espaço é dele, que a cidade o acolhe e não o expulsa para a beirada como um mendigo envergonhado. E, enquanto isso não acontece, a gente segue desviando de poste, pulando poça, descendo para a rua ao relento e torcendo para chegar inteiro em casa. Porque, no final das contas, a calçada até é nossa. Só que o dono da cidade ainda pensa que ela é dele, e a luz que pagamos com tanto sacrifício confirma isso todas as noites, espetacularmente, sobre o capô dos carros.
Sabe aquele trecho da calçada que some do nada? Você caminha de boa e, de repente, o passeio vira rampa de garagem, ilha de cimento ou simplesmente nada. Acabou. Quem segue a pé que se vire, que desça para a rua e dispute espaço com toneladas de metal a cinquenta por hora. É assim, todos os dias, em praticamente qualquer cidade brasileira que se diga desenvolvida. A calçada não é tratada como infraestrutura essencial; é uma benesse mal administrada, um espaço a reboque do projeto viário, quando deveria ser a espinha dorsal da mobilidade.
Mas o que, afinal, transforma uma calçada em boa para quem anda? Largura é o básico, e não estou falando de faixa larga de aeroporto. Basta que duas pessoas consigam se cruzar sem encostar o ombro uma na outra, sem ter que dar meia-volta por causa de um poste engolindo o espaço. O piso precisa ser plano, contínuo, sem aquelas armadilhas que quebram tornozelos e atiram cadeirantes para a pista sem cerimônia. Arborização faz falta, porque sombra não é frescura quando o sol bate a quarenta graus e o asfalto solta vapor quente no rosto. E obstáculos? Postes no meio do caminho, placas espetadas como se o pedestre fosse invisível, lixeiras, mesas de bar, tapumes, placas de obra e, claro, carros estacionados em cima do passeio público como se estivessem em seu quintal privativo. A calçada vira depósito, garagem improvisada, extensão do comércio, palco de reforma. O pedestre vira intruso na própria cidade, obrigado a fazer slalom entre barreiras que ninguém autorizou, mas todo mundo aceita de bom grado porque, afinal, “quem anda a pé não gera trânsito”, como se mobilidade fosse sinônimo exclusivo de rodovia e asfalto.
Agora, uma pergunta que deveria incomodar muito mais gente: por que os postes de iluminação pública jogam quase toda a luz para a via dos carros? Sério. Pare e observe na próxima esquina. A laranjada amarelada do vapor de sódio — ou o branco frio do LED moderno — banha generosamente o asfalto onde já circulam veículos equipados com farol alto, farol baixo, farol de neblina, lanterna traseira de LED e, às vezes, até xenon ilegal. O carro é uma ópera de luzes próprias, um show de iluminação particular que custou caro ao dono. O pedestre, não. O pedestre tem o que? A esperança de não torcer o pé no buraco que o poste não iluminou, e a sorte de não cruzar com alguém de más intenções no escuro, parado sob a única sombra do poste que deveria protegê-lo.
Iluminar a rua e deixar a calçada na penumbra é um erro técnico grotesco — ou uma escolha política descarada — que revela quem manda de verdade no projeto urbano. A rua é o espaço sagrado do automóvel; a calçada, uma sobra mal iluminada onde você caminha por conta e risco. Na escuridão, quem anda fica vulnerável a assaltos, a buracos, a desníveis, a postes que aparecem do nada como inimigos silenciosos esperando a canela descuidada. E o pior: pagamos por isso com nossos impostos, mês após mês. A conta de iluminação pública sai do bolso de todos, inclusive do cidadão que não tem carro, para dar mais segurança visual a quem já tem quatro pneus, airbag, câmera de ré e um volante. É quase um subsídio invertido: quem menos precisa de luz pública é quem mais a recebe de bandeja, enquanto quem depende dela fica no escuro, tropeçando e rezando.
Uma calçada decente deveria ser prioridade absoluta de qualquer gestor público que se preze. Ela é o primeiro e o último trecho de toda viagem urbana: você sai de casa a pé, pega o ônibus, o metrô, talvez um aplicativo, mas sempre volta a pisar no chão da cidade. Se esse chão é quebrado, estreito, escuro e hostil, a cidade inteira se revela hostil. Não existe cidade inteligente, cidade sustentável ou cidade humana sem calçada de qualidade. Não existe urbanismo de verdade onde o pedestre é tratado como coadjuvante inconveniente que atrapalha o fluxo dos veículos e merece apenas o que sobra do orçamento e da atenção dos planejadores.
O mínimo que se poderia exigir é inverter os holofotes — literalmente. Deixe o carro com seus faróis modernos, seus sensores de luz e seu farol de xenon. O pedestre precisa enxergar onde pisa, precisa sentir que o espaço é dele, que a cidade o acolhe e não o expulsa para a beirada como um mendigo envergonhado. E, enquanto isso não acontece, a gente segue desviando de poste, pulando poça, descendo para a rua ao relento e torcendo para chegar inteiro em casa. Porque, no final das contas, a calçada até é nossa. Só que o dono da cidade ainda pensa que ela é dele, e a luz que pagamos com tanto sacrifício confirma isso todas as noites, espetacularmente, sobre o capô dos carros.
Marcelo Augusto Rodrigues, é jurista, observador urbano, sertanista, consultor ambiental, ex-Secretário de Meio Ambiente do Recife, e sócio proprietário do escritório de advocacia Marcelo Rodrigues Advogados.
