Por João Américo de Freitas
A matemática eleitoral brasileira escancara uma hipocrisia que a legislação, sozinha, tem se mostrado incapaz de resolver. Em uma análise dos dados fornecidos pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) no seu Portal de Dados Abertos, verificamos que as eleições de 2026 escancaram um problema histórico, participação das mulheres no processo político eleitoral na condição de serem votadas, ou seja, o problema estrutural de representação.
As mulheres representam a maioria absoluta, somando 52,81% do eleitorado nacional, o que equivale a 83,8 milhões de eleitoras. No entanto, quando os holofotes se voltam para o topo do poder Executivo estadual, elas encolhem para ínfimos 16,7% das candidaturas aos governos, totalizando apenas 25 mulheres entre 150 postulantes.
O abismo entre quem vota e quem tem o direito real de ser votada revela que a política, historicamente, continua sendo um ambiente inóspito e hostil para a participação feminina.
A ausência é tão gritante que em nove das 27 unidades da federação não há sequer uma mulher disputando o governo estadual. Esse apagão feminino perpassa diversas ideologias, com legendas como PT, Republicanos, PSB e Novo não apresentando nenhuma candidata na cabeça de chapa no levantamento dos dados do TSE.
O problema central é que a estrutura partidária opera, na prática, como um clube fechado.
Os partidos políticos, dominados por homens, que tomam todas as decisões olhando exclusivamente para as suas próprias necessidades e interesses. Isso significa que, mesmo com a existência de mecanismos legais que estabelecem a cota mínima de 30% de candidaturas de cada gênero nas disputas proporcionais, falta um compromisso genuíno com a inclusão.
As mulheres esbarram na falta de distribuição real de oportunidades e recursos, tornando necessário que os investimentos formem quadros a longo prazo para que elas não dependam de vínculos familiares com políticos para chegar aos espaços de poder.
Essa barreira estrutural afeta até mesmo a renovação geracional, que deveria ser o motor natural da mudança.
Após três eleições consecutivas de avanços na diversidade e aproximação da paridade de gênero, o cenário de candidaturas de jovens até 29 anos ao Legislativo sofreu um revés, com as mulheres representando apenas 40,5% dos concorrentes. O recorte racial torna esse freio de arrumação ainda mais cruel: a participação de candidatas jovens e negras despencou de 28,7% para 21,3%, enquanto os homens brancos voltaram a ser o maior grupo, saltando de 26,2% para 30,8%.
Esse desequilíbrio recente é impulsionado, em parte, pelo forte ingresso de novas legendas na disputa, como o partido Missão, cujos candidatos jovens registrados no Tribunal Superior Eleitoral são esmagadoramente homens, somando 70,8%.
João Américo de Freitas é advogado e analista político
Os dados do TSE provam de forma incontestável que a caneta do legislador não é suficiente para mudar a realidade do balcão de negócios das urnas.
Não precisamos apenas de mais imposições legais que obriguem o sistema a reservar um espaço protocolar na prateleira eleitoral para as mulheres. O que o Brasil necessita urgentemente é de estímulos reais, financiamento justo e a desconstrução do machismo institucionalizado. A verdadeira paridade não nascerá de uma cota preenchida a contragosto, mas da construção inadiável de uma cultura política que finalmente viabilize e respeite a mulher como protagonista plena das decisões do país.
