
Basta uma rápida caminhada por qualquer grande supermercado do país para perceber um paradoxo difícil de explicar. Em um território reconhecido mundialmente por sua biodiversidade, o Brasil oferece aos consumidores uma seleção de frutas que pouco dialoga com sua própria identidade. Maçãs, peras, uvas e kiwis ocupam espaços privilegiados, enquanto frutas nativas — especialmente as do Nordeste — permanecem ausentes, invisíveis ou restritas a mercados locais. Onde estão o umbu, a mangaba, o cajá, a siriguela, a pitomba, o murici, o jenipapo, o bacuri, a cajarana e o araticum-do-sertão?
A ausência não se explica por falta de sabor ou valor nutricional. Pelo contrário. Muitas dessas frutas carregam características excepcionais: resistência à seca, alta concentração de vitaminas, aromas intensos e sabores que traduzem o próprio território onde nasceram. O umbuzeiro, símbolo do semiárido, é capaz de sobreviver a longos períodos de estiagem e produzir frutos ricos em vitamina C. A mangaba reúne doçura e acidez em equilíbrio raro. O cajá e a siriguela fazem parte da memória afetiva de gerações inteiras. Ainda assim, seguem fora do circuito principal de consumo.
O problema está no modelo agrícola e alimentar que escolhemos consolidar ao longo do tempo. A produção em larga escala priorizou frutas exóticas, com maior padronização, aparência uniforme e maior resistência ao transporte e ao armazenamento. Já as frutas nativas, muitas delas delicadas, de amadurecimento rápido e formatos irregulares, não se encaixaram na lógica industrial que domina as gôndolas. Essa escolha não foi neutra: moldou hábitos, apagou sabores e reduziu a diversidade alimentar.
Há também uma dimensão científica e política pouco debatida. Resolver questões como durabilidade, conservação e logística não é uma barreira intransponível, mas exige investimento contínuo em pesquisa. Instituições como a Embrapa já acumulam conhecimento sobre frutas nativas do Nordeste, estudando melhoramento genético, sistemas agroflorestais e tecnologias pós-colheita. O que falta é transformar esse conhecimento em prioridade nacional, com recursos compatíveis e políticas públicas que aproximem ciência, produtores e mercado.
A desvalorização das frutas nordestinas não é apenas econômica; é cultural. Durante décadas, o país foi educado a associar qualidade ao que vem de fora e a tratar o que é nativo como algo secundário, rústico ou limitado ao consumo regional. Muitas dessas frutas ficaram associadas à pobreza ou à subsistência, quando, na verdade, representam adaptação inteligente ao clima, saber tradicional e enorme potencial produtivo. Ao negar espaço a esses frutos, negamos também parte da nossa história.
As consequências são profundas. Agricultores familiares e comunidades tradicionais deixam de acessar mercados mais amplos. O país perde a chance de fortalecer cadeias produtivas regionais, gerar renda no campo e diversificar sua base alimentar. Em tempos de mudanças climáticas, ignorar frutas adaptadas ao semiárido é insistir em um modelo frágil e dependente de insumos externos.
Valorizar as frutas nativas do Nordeste não é nostalgia nem romantização. É estratégia econômica, ambiental e social. A alta gastronomia já começa a redescobrir esses sabores, mas essa valorização precisa sair dos restaurantes e chegar às prateleiras, às escolas, às políticas públicas e à mesa das famílias brasileiras.
O Brasil que se vê no supermercado ainda é pequeno diante do Brasil que existe de fato. Ampliar esse reflexo é reconhecer que nossos sabores têm ciência, têm valor e têm futuro. Talvez o país só comece a se reconhecer plenamente quando decidir, finalmente, provar aquilo que sempre foi seu.
Marcelo Augusto Rodrigues, é advogado especialista em direito ambiental e urbanístico, consultor técnico em sustentabilidade da Prefeitura Municipal de Caruaru, ex-Secretário de Meio Ambiente do Recife, e sócio proprietário do escritório de advocacia Marcelo Rodrigues Advogados.
