
Pedro Augusto/Blog Capital
A disputa eleitoral em Pernambuco parece ter entrado em um terreno que ultrapassa a crítica política e alcança o limite da irresponsabilidade. Cartazes e panfletos espalhados pelas ruas passaram a associar a governadora e candidata à reeleição, Raquel Lyra (PSD), à morte de seu marido, Fernando Lucena, ocorrida em 2 de outubro de 2022. A pergunta que fica é simples: até onde pode ir uma campanha para destruir a imagem de um adversário?
É legítimo questionar governos, cobrar resultados, apontar erros e confrontar adversários. Faz parte da democracia. O que não parece razoável é transformar uma tragédia familiar em arma eleitoral, sobretudo quando a própria informação apresentada como acusação não vem acompanhada de qualquer elemento que sustente a narrativa. Fernando Lucena morreu após sofrer um infarto e o material espalhado nas ruas tenta transformar uma fatalidade em uma acusação de natureza criminal.
O episódio acontece, ainda, em um momento delicado da campanha. Apenas um dia antes, o TRE-PE havia determinado a retirada de conteúdos que apresentavam como fato comprovado a existência de um suposto “gabinete do ódio” ligado ao governo Raquel Lyra. Na decisão, o tribunal apontou que as publicações tratavam suspeitas apresentadas em reportagem como conclusões definitivas e também destacou que não havia comprovação, nos elementos analisados, de uma investigação formal da Polícia Federal sobre o caso.
Independentemente de preferência partidária, há uma questão maior em jogo: que tipo de eleição Pernambuco deseja ter? A crítica política precisa existir, mas deve estar acompanhada de fatos, documentos e responsabilidade. Quando uma disputa abandona propostas e começa a explorar a morte de familiares, fabricar suspeitas ou espalhar acusações sem comprovação, o debate público perde qualidade e a própria democracia é empobrecida.
Raquel Lyra pode e deve ser cobrada por seus atos como governadora. João Campos e qualquer outro candidato também devem estar sujeitos ao mesmo escrutínio. Mas eleição não deveria ser uma licença para destruir reputações a qualquer custo. Se a política chegar ao ponto de transformar o luto de uma família em instrumento de propaganda, talvez seja hora de perguntar, mais uma vez: a que ponto se chega para tentar ganhar uma eleição?
