Muito além de um conjunto de receitas ou ingredientes, a cozinha sertaneja constitui um sofisticado sistema de conhecimentos construído ao longo de séculos para responder a uma pergunta fundamental: como permanecer? É a partir dessa perspectiva que a exposição “Cozinha Sertaneja – Comer para Resistir” será inaugurada nesta quinta-feira, 16 de julho, às 18h, no Centro Cultural Mercado Eufrásio Barbosa, em Olinda.
Realizada como uma ação do Circuito Fenearte, programação que acontece paralelamente à feira, a mostra permanecerá aberta à visitação até 23 de agosto, reunindo objetos, utensílios, instalações cenográficas, fotografias e textos curatoriais que apresentam a culinária sertaneja como um patrimônio cultural construído pela convivência entre natureza, técnica, memória e religiosidade.
A exposição parte da compreensão de que cozinhar, no Semiárido, sempre significou muito mais do que preparar alimentos. Diante da irregularidade das chuvas, das longas distâncias e da escassez de recursos, povos indígenas, africanos, sertanejos e colonizadores desenvolveram técnicas capazes de conservar, transportar e transformar os alimentos, criando um repertório de conhecimentos que atravessa gerações.
Organizada em diferentes núcleos temáticos, a mostra percorre temas como a mandioca — o “pão da terra” que sustenta o Brasil desde antes da colonização —, a criação de animais, a importância do porco e da banha na conservação dos alimentos, a cozinha como espaço de convivência familiar e de transmissão de saberes e a religiosidade popular, representada pelos oratórios domésticos e pela devoção a São José, santo associado às chuvas e à boa colheita no Sertão.
Além dos núcleos expositivos, a mostra apresenta um extrato do ensaio fotográfico “Vaqueiros de Gibão” (2025), resultado de mais de uma década de pesquisa do fotógrafo e antropólogo Pablo Pinheiro no Seridó, entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba. Construídas a partir da convivência e da escuta dos homens e mulheres que mantêm viva a tradição da vaqueirama sertaneja, as imagens revelam o profundo vínculo entre o vaqueiro, a caatinga e os saberes transmitidos entre gerações. Mais do que documentar um ofício, o ensaio reafirma o vaqueiro de gibão como protagonista de uma cultura viva e como expressão da memória, da identidade e do patrimônio cultural do Sertão nordestino.
Mais do que apresentar objetos do cotidiano, a exposição procura revelar as tecnologias da sobrevivência desenvolvidas no Semiárido, demonstrando como utensílios, ingredientes e modos de fazer constituem um patrimônio material e imaterial profundamente ligado à identidade pernambucana.
Para o curador Bruno Albertim, a cozinha sertaneja revela uma inteligência cultural construída ao longo de séculos. “Mais do que um repertório de receitas, o cozinhar sertanejo constitui um sofisticado sistema de tecnologias populares. Cada objeto, cada ingrediente e cada modo de preparo respondem a uma pergunta fundamental: como permanecer?”, afirma.
O curador Lúcio Omena destaca que a exposição amplia a compreensão da culinária para além dos alimentos. “Mais do que mostrar alimentos, a exposição dialoga sobre as tecnologias da sobrevivência, os objetos do cotidiano, os materiais da cozinha e os modos de viver que fizeram do sertão um dos mais ricos territórios culinários do Brasil.”
Ao longo do percurso expositivo, o visitante encontra desde casas de farinha, pilões, peneiras e gamelas até instalações cenográficas e ambientes que recriam a cozinha sertaneja como espaço de memória, encontro e afeto. A proposta é mostrar que, no Sertão, alimento, cultura material e religiosidade formam um mesmo universo de permanência. Como sintetiza o conceito da mostra, “no Sertão, cozinhar nunca foi apenas preparar a comida. Foi sempre temperar o permanecer.”
Fotografias de Xirumba
Outro destaque da exposição é o núcleo dedicado ao fotógrafo Xirumba, um dos grandes nomes da fotografia brasileira, que celebra 50 anos de trajetória profissional. O público poderá conhecer dezenas de imagens produzidas entre 1983 e 2008, resultado de mais de duas décadas de viagens pelo Sertão brasileiro.
As fotografias revelam paisagens, personagens e modos de vida que atravessam um vasto território, da Bahia ao Maranhão, compondo um retrato sensível da diversidade sertaneja. “Tudo no Sertão me impressiona: as pessoas, a luz, que é única. Tem uma luminosidade que nunca vi em nenhum outro lugar do mundo”, afirma o fotógrafo.
Com seu olhar atento e profundamente humanista, Xirumba registra a força da paisagem, a dignidade de seu povo e a beleza cotidiana do Semiárido, transformando a fotografia em um poderoso documento da memória e da identidade do Sertão.
*SERVIÇO*
*Cozinha Sertaneja – Comer para resistir*
Local: Centro Cultural Mercado Eufrásio Barbosa – Olinda (PE)
Abertura: 16 de julho de 2026 (quinta-feira), às 18h
Período de visitação: de 16 de julho a 23 de agosto de 2026, de terça a domingo, das 9h às 17h
Entrada gratuita
*Ficha técnica*
Curadoria: Bruno Albertim e Lúcio Omena
Expografia e Cenografia: Isac Filho e Peu Carneiro
Direção de Arte: Bidu Alves
Fotografias: Bidu Alves e Lúcio Omena
Coordenação de Produção: Cíntia Couto
Assistente de Produção: Julia Moura
Montagem: Equipe Fenearte e Equipe CenoCarva
Design Gráfico e Identidade Visual: André Santana.
Homenagem aos Seleiros
O tema “Seleiros de Pernambuco: Ofício que Transforma” evidencia o trabalho de artesãs e artesãos que fazem do couro uma matéria-prima capaz de preservar tradições e impulsionar a economia criativa. A edição reverencia mestres como Zé Venceslau, referência do Ciclo do Couro de Exu; Irineu do Mestre, da Fazenda Cacimbinha, em Salgueiro, criador dos “bonéus” (mistura de boné com chapéu) usados por João Gomes; Fafá Belém, pioneira na utilização do couro de tilápia em Petrolândia; além dos seleiros de Cachoeirinha e dos designers e estilistas que consolidam o couro como elemento marcante da moda autoral pernambucana.
A acessibilidade permanece como uma das prioridades do evento. Pessoas com deficiência visual, pessoas neurodivergentes e pessoas surdas ou ensurdecidas contarão com visitas guiadas com acessibilidade comunicacional.
Para facilitar o acesso do público, a feira contará novamente com traslados gratuitos saindo dos shoppings Recife, RioMar, Plaza, Tacaruna e Patteo. Nesta edição, o desembarque no Centro de Convenções será realizado em um novo terminal de passageiros, oferecendo ainda mais conforto e acessibilidade aos visitantes.
*26ª Fenearte — Feira Nacional de Negócios do Artesanato*
*Quando:* 08 a 19 de julho de 2026
*Onde:* Pernambuco Centro de Convenções (Av. Prof. Andrade Bezerra, s/n – Salgadinho, Olinda)
*Horários:*
Segunda a sexta-feira — 14h às 22h
Sábado e domingo — 10h às 22h
*Ingressos:*
Segunda a quinta-feira — R$ 12 (entrada inteira) e R$ 6 (meia-entrada)
Sexta-feira a domingo — R$ 16 (entrada inteira) e R$ 8 (meia-entrada)
À venda pelo site *www.evenyx.com/26a-fenearte* e nas unidades das *lojas do Artesanato de Pernambuco* no Edifício Palazzo Itália (Bairro do Recife) e nos shoppings Recife e Tacaruna.
