Por Marcelo Rodrigues
Nas entranhas de Melbourne, trabalhadores do sistema de esgoto depararam-se com algo inesquecível em 2018: uma massa compacta de mais de uma tonelada bloqueando completamente as tubulações. Na cidade americana de Baltimore, no mesmo ano, equipes precisaram usar jatos de água de alta pressão durante dias para desmanchar um bloco fedorento que ameaçava provocar inundações de esgoto.
E Londres, bem, a capital britânica enfrentou em 2017 um verdadeiro Godzilla subterrâneo: 250 metros de extensão, 130 toneladas, nove semanas de trabalho árduo para remoção. Essas cidades descobriram da pior forma possível a existência dos fatbergs – termo que combina “fat” (gordura) e “iceberg” para nomear essas massas gigantescas formadas por gordura solidificada, restos de comida, fraldas, preservativos e principalmente toalhas umedecidas que estão transformando os sistemas de esgoto em verdadeiras bombas-relógio ambientais.
Quando jogamos óleo de fritura na pia ou descartamos lenços umedecidos no vaso sanitário, imaginamos que aquilo simplesmente desaparecerá. Essa ilusão custa caro. A gordura, ao esfriar dentro das tubulações, solidifica e funciona como um ímã para outros detritos. Aos poucos, camada sobre camada, forma-se uma rocha fedorenta que obstrui completamente a passagem do esgoto. O resultado? Bueiros que transbordam nas ruas, residências invadidas por dejetos e rios poluídos com esgoto in natura.
As cidades brasileiras ainda não dimensionaram adequadamente esse problema, mas ele já está batendo à porta. Relatórios de companhias de saneamento apontam aumento alarmante de obstruções causadas por acúmulo de gordura e materiais inadequados. Em São Paulo, técnicos já removeram bloqueios impressionantes nas galerias pluviais. No Rio de Janeiro, praias são fechadas periodicamente devido à contaminação por esgoto que não conseguiu seguir seu curso pelos canos entupidos.
A questão transcende o asco natural que sentimos ao imaginar essas massas putrefatas. Há impactos econômicos brutais. Cada intervenção para desobstrução custa milhares de reais aos cofres públicos, recursos que poderiam estar sendo investidos em saúde ou educação. As empresas de saneamento repassam esses custos operacionais nas tarifas, onerando todos os consumidores. Além disso, quando o esgoto transborda, contamina solo e água, comprometendo a saúde pública e exigindo tratamentos médicos caros para doenças evitáveis.
O meio ambiente sofre duplamente. Primeiro, porque a produção excessiva de descartáveis que alimentam os fatbergs pressiona recursos naturais e gera montanhas de lixo. Segundo, porque quando essas obstruções provocam extravasamento de esgoto, rios e oceanos recebem carga orgânica devastadora, matando peixes, desequilibrando ecossistemas inteiros e destruindo áreas de lazer que demoram anos para se recuperar.
Existe saída? Sim, e ela começa na nossa cozinha e banheiro. Óleo usado deve ser armazenado em garrafas e entregue em pontos de coleta para reciclagem. Lenços umedecidos, mesmo os rotulados como biodegradáveis, precisam ir para o lixo comum, nunca para o vaso sanitário. Restos de comida devem ser descartados em composteiras ou no lixo orgânico. São gestos simples que parecem insignificantes quando executados individualmente, mas que ganham poder transformador quando multiplicados por milhões de pessoas.
A verdade inconveniente é que cada um de nós está construindo ou desmontando esses monstros subterrâneos. Nossas escolhas diárias, aparentemente banais, determinam se as cidades permanecerão funcionais ou entrarão em colapso sanitário. O sistema de coleta seletiva e a conscientização sobre descarte adequado não são luxos ambientalistas – são necessidades urgentes de sobrevivência urbana. Afinal, o que enviamos ralo abaixo não desaparece magicamente. Apenas se esconde, esperando o momento de retornar. Os fatbergs crescem no escuro, alimentados pela nossa negligência coletiva, mas podem ser derrotados pela mesma força que os criou: nossas decisões cotidianas.
Marcelo Rodrigues, é advogado especialista em direito ambiental e urbanístico, consultor técnico em sustentabilidade da Prefeitura Municipal de Caruaru, ex-Secretário de Meio Ambiente do Recife.
