Quando a praça cura: o que a ciência revela sobre os espaços públicos e a saúde mental dos idosos

Por Marcelo Rodrigues

Há algo de profundo e silencioso acontecendo nas praças das cidades brasileiras todas as manhãs. Enquanto o país envelhece em ritmo acelerado, esses espaços — muitas vezes negligenciados pelo poder público — seguem funcionando como verdadeiros territórios de saúde coletiva, especialmente para quem já completou mais de seis décadas de vida. Não é exagero afirmar que, em muitos casos, a praça do bairro faz o que a política pública ainda não conseguiu: oferecer pertencimento, movimento e sentido ao cotidiano de milhões de pessoas idosas.

Os números são reveladores. Desde 1950, o crescimento populacional, a urbanização acelerada e o aumento da expectativa de vida transformaram de forma radical países como o Brasil. Segundo projeções demográficas da Organização das Nações Unidas, o número de brasileiros com 60 anos ou mais deverá superar a população de jovens entre 0 e 14 anos já em 2029. Esse horizonte cada vez mais próximo impõe uma urgência que o urbanismo e as políticas públicas ainda não internalizaram completamente: as cidades precisam ser repensadas à luz do corpo que envelhece.
Nesse contexto, um estudo realizado em Fortaleza lança luz sobre a importância dos espaços públicos para a saúde mental da população idosa. A pesquisa “Longevidade, Acessibilidade Urbana e Conforto Ambiental” acompanhou 236 pessoas idosas em três praças distintas da capital cearense, combinando medições técnicas e quantitativas — como acessibilidade, iluminação, nível de ruído, qualidade do ar e conforto térmico — com entrevistas qualitativas que captaram a experiência subjetiva dos frequentadores. O resultado aponta para uma relação mais complexa do que se poderia imaginar: mesmo diante de falhas concretas de infraestrutura, as praças continuam sendo espaços fundamentais de afeto, espiritualidade, pertencimento e vitalidade.

Os próprios participantes da pesquisa não pouparam críticas objetivas aos espaços: calçadas danificadas, raízes de árvores expostas que criam desníveis perigosos, lixo no chão e iluminação insuficiente foram apontados como falhas recorrentes. Não se trata de detalhes menores. Em uma cidade que envelhece como Fortaleza — com mais de 261 mil pessoas idosas — esses obstáculos físicos representam uma ameaça direta à autonomia e à independência de quem precisa circular com segurança. Cada calçada quebrada é uma queda em potencial; cada desnível não sinalizado é uma barreira invisível que afasta o idoso do espaço público.

Ainda assim, a maioria dos entrevistados relatou sentimentos predominantemente positivos ao frequentar as praças. O convívio social emergiu como o fator central dessas experiências. Caminhar no início da manhã, sentar-se ao fim da tarde, conversar com conhecidos e observar o movimento ao redor foram descritos como práticas que mantêm o corpo ativo e a mente presente. A praça, nesse sentido, não é apenas equipamento urbano — é um elo entre o indivíduo e a cidade, uma extensão da própria casa para quem já se aposentou e encontra no espaço coletivo uma razão para sair.

A ciência corrobora essa percepção. Evidências acumuladas associam a permanência frequente em áreas abertas à redução de sintomas de ansiedade, à melhora na qualidade do sono e ao fortalecimento da memória e da atenção. Em um país marcado por desigualdades profundas no acesso aos serviços de saúde, qualificar e fortalecer o espaço público deixa de ser apenas uma demanda estética ou urbanística para se tornar uma estratégia preventiva concreta — e de baixo custo.

O geógrafo Milton Santos cunhou a expressão “cidadania mutilada” para descrever como a urbanização desigual restringe o acesso real das pessoas aos benefícios da vida urbana. Os dados confirmam essa leitura de forma perturbadora: em São Paulo, a expectativa de vida entre um bairro e outro pode variar até 24 anos. Em Fortaleza, essa variação chega a 21 anos. O desenho da cidade, portanto, não é neutro. Ele molda comportamentos cotidianos, condiciona a saúde mental e determina, na prática, de que forma corpos diferentes — incluindo os que envelhecem — vivenciam e participam da vida urbana.

As praças sempre ocuparam lugar central na vida das cidades. Desde a Antiguidade, foram concebidas como espaços de encontro, de circulação e de convivência. Nas cidades brasileiras contemporâneas, esse papel persiste, mas enfrenta o descaso de gestões que ainda não compreenderam o envelhecimento populacional como prioridade de planejamento urbano. Investir na manutenção, acessibilidade e qualidade ambiental das praças não é gasto supérfluo: é uma das formas mais eficazes — e mais humanas — de cuidar da saúde de quem construiu este país.

Marcelo Rodrigues, é advogado especialista em direito ambiental e urbanístico, consultor técnico em sustentabilidade da Prefeitura Municipal de Caruaru, ex-Secretário de Meio Ambiente do Recife.