Uma segunda chance para os materiais de construção: O novo padrão da economia circular no setor

Por Marcelo Rodrigues

A indústria da construção civil movimenta bilhões anualmente no Brasil, mas carrega consigo uma marca pouco glamorosa: é responsável por cerca de 40% dos resíduos sólidos urbanos gerados no país. Enquanto governos e sociedade debatem soluções para a crise ambiental, uma iniciativa simples e eficaz ganha força nas periferias das grandes cidades: o brechó de materiais de construção.

Diferentemente do que se poderia imaginar, essa não é apenas uma questão de economia doméstica. Trata-se de um movimento que ressignifica a relação entre consumo, desperdício e responsabilidade social. Em São Paulo, por exemplo, iniciativas comunitárias já comercializam tijolos, telhas, portas, janelas e outros componentes retirados de demolições e reformas, oferecendo alternativas acessíveis para famílias de baixa renda que sonham com a casa própria.

O conceito funciona através de processos técnicos específicos: materiais que seriam descartados em aterros ou terrenos baldios passam por etapas de triagem, classificação, limpeza, recuperação estrutural e revenda. Por trás dessa operação existe uma cadeia logística complexa que envolve desde protocolos de avaliação técnica de materiais até sistemas de estoque e distribuição especializados.

A operacionalização desses espaços requer conhecimento técnico para avaliar a integridade estrutural de componentes como vigas, pilares e elementos de vedação. Profissionais especializados aplicam critérios rigorosos de seleção, descartando materiais que apresentem comprometimento de resistência mecânica ou deterioração que possa afetar seu desempenho futuro.

Além do benefício social evidente, os brechós de construção representam uma solução ambiental inteligente. Cada tonelada de material reutilizado significa menos pressão sobre recursos naturais, redução no volume de entulho despejado irregularmente e diminuição da pegada de carbono associada à produção de novos componentes. Especialistas em sustentabilidade apontam que a economia circular na construção civil poderia reduzir em até 30% a demanda por matérias-primas virgens.

A experiência internacional reforça esse potencial. Na Europa, países como Holanda e Dinamarca desenvolveram políticas públicas que incentivam a reutilização de materiais construtivos, criando verdadeiras cadeias produtivas baseadas na economia circular. Empresas especializadas em desconstrução – processo oposto à demolição tradicional – recuperam até 85% dos materiais de edificações antigas.

No Brasil, construtoras começam a incorporar estratégias de desconstrução seletiva em seus processos operacionais. Além de reduzir custos operacionais com descarte, podem monetizar materiais que anteriormente representavam passivo ambiental. Essa reorientação estratégica empresarial requer implementação de protocolos específicos de separação e armazenamento durante as fases de demolição e reforma.

Contudo, desafios persistem. A falta de padronização na classificação de materiais reutilizáveis, ausência de certificação de qualidade e resistência cultural ao “usado” são obstáculos que exigem superação gradual. Iniciativas educativas em escolas técnicas e universidades podem formar profissionais capacitados para esse novo nicho de mercado.

O poder público também possui papel fundamental nessa transformação. Políticas de compras sustentáveis, que priorizem materiais recondicionados em obras públicas, podem criar demanda suficiente para consolidar esse mercado emergente. Programas habitacionais que incorporem o conceito de brechó da construção amplificariam significativamente o impacto social e ambiental.

A revolução silenciosa dos brechós de material de construção demonstra que soluções eficazes nem sempre emergem de laboratórios ou gabinetes governamentais. Muitas vezes nascem da necessidade popular e da criatividade coletiva, provando que sustentabilidade e inclusão social podem caminhar juntas rumo a um futuro mais equilibrado e justo para todos.

Marcelo Rodrigues, é advogado especialista em direito ambiental e urbanístico, consultor técnico em sustentabilidade da Prefeitura Municipal de Caruaru, ex-Secretário de Meio Ambiente do Recife.