
Tímida. Essa foi a primeira impressão que Andrezza Andrade, de 31 anos, teve de Marina*, de 16. Foi no inverno de julho de 2025 que a jovem chegou a uma agência bancária localizada no bairro de Santo Amaro, mas foi em novembro que as duas se conheceram pela primeira vez. Marina começava como jovem aprendiz no local e Andrezza, que acabara de retornar de férias, era sua supervisora. Posteriormente, na primavera daquele ano, a relação entre as duas iria florescer.
Apesar da presença acanhada, foi a dedicação da menina, a maneira como ela se entregava ao trabalho, que chamou a atenção de Andrezza. “Eu já admirava ela”, conta a madrinha, que hoje é nutricionista. À época, quando ainda trabalhava na parte administrativa do banco, ela havia ficado responsável por supervisionar os jovens aprendizes que chegavam ao local. Entre planilhas, ligações e boletos, começava a se desenvolver uma aproximação entre as duas. O início não foi fácil: Marina falava pouco, não se abria muito, limitava-se a cumprir seu ofício e ir embora. Com o tempo, sentando lado a lado e conversando trivialidades, ambas permitiram que a conexão acontecesse. De repente, Marina já confidenciava à colega sua rotina na escola, desabafava sobre as amizades, no que Andrezza retribuía com suas próprias confissões.
Chegado dezembro, o clima de confraternização veranil já tomava conta do ambiente de trabalho. Foi então que Andrezza teve a ideia de chamar as colegas para uma pequena celebração, um fim de ano com piscina, comidinhas e descontração. A surpresa veio quando soube que uma das pessoas a quem era mais próxima ali não poderia ir. Marina vivia no Lar Bem, uma instituição de acolhimento para meninas em situação de vulnerabilidade, e para sair de lá precisava de autorização judicial, acompanhada de um padrinho ou madrinha devidamente habilitado. Insatisfeita com a falta que a menina faria, Andrezza foi conversando com ela para entender como poderia ajudá-la a ter alguns dias de diversão fora do lar. Foi aí que descobriu o programa de apadrinhamento afetivo do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), iniciativa que permite a pessoas da sociedade civil criar vínculos de afeto e convivência com crianças e adolescentes acolhidos, proporcionando-lhes passeios, fins de semana e momentos em família que a instituição, por si só, não consegue oferecer. Nesse momento, a futura madrinha já estava certa do que queria fazer.
O processo não foi imediato. Andrezza precisou comparecer ao Fórum, realizar o protocolo necessário, conversar com profissionais da psicologia e serviço social para ser avaliada. O resultado veio positivo para as duas no começo do ano seguinte, e o vínculo de amizade se tornou, também, um vínculo de madrinha e afilhada.
O primeiro dia juntas, na casa de Andrezza, se assemelhava aos primeiros dias de trabalho de Marina. O jeito retraído, a pequenez nos gestos, como se estivessem se conhecendo pela primeira vez. O sentimento da jovem, porém, era engrandecedor, e ela já disse: “eu vou te agradecer para sempre.”
Em entrevista ao TJPE, Andrezza esclarece que o sentimento da garota a preenchia, mas não como uma concessão ou serviço prestado, e sim pela parceria que nascia ali. “Meu coração sabia que eu precisava ajudar ela. Quando a gente escolhe alguém, a gente sabe, e quando vi a oportunidade de apadrinhar Marina, não pensei duas vezes. Mas é importante que as pessoas saibam que esse não é um favor que a gente faz, é uma companhia que se ganha.”
Os dias ficaram mais leves para ambas. Nos fins de semana e feriados livres, Marina se junta à Andrezza para compartilharem momentos juntas. Fazem as unhas, assistem seus doramas favoritos, vão à igreja, saem para comer. A família de Andrezza já a recebe como parte do grupo, e Marina, que de 15 em 15 dias visita a irmã biológica, ganhou mais uma rede de afeto para chamar de sua.
Cada vez mais perto de atingir a maioridade, o sentimento de Marina muitas vezes é de incerteza. O medo de um futuro sem apoio é amenizado pelas palavras da “Dinda”, como ela mesma chama Andrezza, que já deixou claro que o carinho construído entre elas não tem prazo para acabar. Independente da estação, o laço entre as duas já se fortificou para além do que a burocracia poderia limitar.
*Nome fictício
Sobre o apadrinhamento
O TJPE mantém programas de apadrinhamento voltados a crianças e adolescentes que vivem em lares de acolhimento. Há as modalidades afetiva, provedora e profissional. No que diz respeito ao apadrinhamento afetivo, este permite que uma pessoa ou família crie um vínculo com um acolhido, proporcionando convívio, passeios e presença em datas importantes, sem necessidade de adoção.
O processo inclui habilitação, avaliação e acompanhamento pela Justiça da Infância e Juventude. Para Ana Cláudia Souza, psicóloga da 2ª Vara da Infância e Juventude da capital, o programa atua diretamente no processo de formação dos jovens: “O apadrinhamento afetivo atua como uma porta para a garantia da convivência familiar e comunitária de crianças e adolescentes em instituições de acolhimento. É uma oportunidade de encontro e oferecimento de afetos que favorecem o sentimento de pertencimento e ajuda na ressignificação do papel da família, do cuidado e do respeito, ampliando o repertório emocional. O apadrinhamento vai muito além de um momento de lazer, é a mola propulsora do desejo de viver em família, ajudando o apadrinhado(a) na aceitação de se tornar filho pela adoção.”
Para saber mais sobre como ser padrinho ou madrinha, acesse:
https://portal.tjpe.jus.br/web/infancia-e-juventude/apadrinhamento
