Por Marcelo Rodrigues
Caminhar pelas ruas dos municípios do Nordeste brasileiro revela uma paisagem que se tornou invisível: postes carregados de dezenas de cabos mortos, abandonados por empresas que os instalaram e nunca retornaram para removê-los. O fenômeno é tão comum que deixamos de reconhecê-lo como problema, naturalizando o caos aéreo que corta o céu urbano. Essa negligência merece ser nomeada corretamente: abandono de infraestrutura que compromete a segurança pública.
O mecanismo é simples e revoltante. Operadoras de telecomunicações instalam redes, realizam manutenções, trocam tecnologias e deixam para trás quilômetros de cabos inutilizados pendurados nos mesmos postes que sustentam a fiação ativa. Sem fiscalização rigorosa ou prazos para retirada, sem ônus real para quem descarta dessa forma, o material se acumula ano após ano, formando os populares “cachos” e “barrigas” que se arrastam pelas ruas. O que deveria ser temporário se transforma em passivo permanente, e a cidade paga a conta.
Os riscos são concretos. Cabos soltos podem tocar a fiação elétrica ativa, provocando curtos-circuitos, incêndios e choques que colocam pedestres, ciclistas e motoristas em perigo. Emaranhados que descem até a altura de veículos comprometem a mobilidade. Bombeiros relatam dificuldade de acesso durante ocorrências justamente pela quantidade de fios sobrepostos. Além disso, há o impacto sobre a paisagem urbana, o valor imobiliário das áreas afetadas e a autoestima de cidades que investem em requalificação enquanto o céu permanece rasgado por lixo eletrônico.
Iniciativas municipais recentes voltadas à retirada sistemática desse material merecem ser tratadas como política pública estruturante, não como ação pontual. Quando uma autarquia municipal mapeia completamente a rede de postes, quantifica toneladas de cabos mortos, organiza a fiação ativa e devolve ruas inteiras à ordem, está corrigindo uma falha de mercado que o setor de telecomunicações nunca teve incentivo para resolver. Não existe lucro imediato em desmontar cabos obsoletos, apenas custo. Onde há custo sem obrigação legal severa, a tendência do mercado é sempre a inércia.
Não é coincidência que essa mobilização ganhe força em capitais nordestinas. A região, historicamente cobrada por resolver deficits de infraestrutura, encontra agora um novo capítulo de sua agenda de modernização: o combate ao abandono aéreo. Ao retirar toneladas de fiação morta, gestões municipais mostram que planejamento urbano de qualidade depende, antes de tudo, de vontade política para confrontar interesses que preferem manter o problema invisível.
Contudo, ações isoladas não bastam para resolver um problema estrutural que se repete em praticamente toda a malha urbana nordestina. É preciso que essa postura deixe de ser exceção e passe a ser padrão exigido. Municípios que ainda não iniciaram levantamentos sistemáticos precisam entender que a inércia tem preço: em acidentes, processos judiciais, imagem institucional e, sobretudo, em vidas colocadas em risco. Regulação clara, prazos definidos para retirada de cabos, penalidades efetivas para operadoras e parcerias entre autarquias e concessionárias são caminhos já testados que produzem resultados mensuráveis.
Há também uma dimensão ambiental. Cabos abandonados acumulam-se como resíduo eletrônico com componentes que exigem descarte adequado. Cidades que dão destinação ambientalmente correta ao material recolhido fecham um ciclo que alcança a sustentabilidade urbana.
O que está em jogo não é apenas aparência, mas segurança pública, eficiência regulatória e respeito ao espaço coletivo. Cidades que convivem com quilômetros de fiação morta terceirizam para o acaso um risco que poderia ser eliminado com planejamento e fiscalização. As experiências recentes de municípios nordestinos provam que a solução é técnica e política. Falta replicá-la em escala, com a coragem de quem entende que uma cidade só é verdadeiramente moderna quando também cuida do que está pendurado sobre ela.
Marcelo Augusto Rodrigues, é jurista, observador urbano, sertanista, consultor ambiental, ex-Secretário de Meio Ambiente do Recife, e sócio proprietário do escritório de advocacia Marcelo Rodrigues Advogados.







