Bolsonaro começa a montar seu governo

AFP

Jair Bolsonaro inicia na segunda-feira (29) suas atividades como presidente eleito, com projetos de ruptura com tudo o que tem a marca da esquerda no campo da economia, de políticas sociais e alinhamentos diplomáticos do Brasil. “Não podemos continuar flertando com o socialismo, o comunismo, o populismo e o extremismo de esquerda”, afirmou Bolsonaro, do PSL, um admirador da ditadura militar (1964-1985), depois de ser eleito no domingo com 55% dos votos, contra 45% de Fernando Haddad, candidato do PT. Leia o discurso na íntegra.

O ultraliberal Paulo Guedes, a quem Bolsonaro prometeu o ministério da Fazenda, anunciou de modo imediato a intenção de “mudar o modelo econômico social-democrata” com um programa acelerado de privatizações e de controle dos gastos públicos, como receita para reativar uma país que passou por dois anos de recessão e outros dois de crescimento frágil.

Para isso, acrescentou, “precisamos de uma reforma da Previdência”. Os anúncios devem ser bem recebidos na abertura dos mercados nesta segunda-feira. O presidente Michel Temer, que desde que sucedeu em 2016 a presidente afastada Dilma Rousseff aplica um plano de severos ajustes, expressou o desejo de planejar a transição antes da cerimônia de posse de 1º de janeiro “para dar continuidade ao que fizemos”.

Bolsonaro, 63 anos, ainda carrega uma bolsa de colostomia em consequência da facada que sofreu no abdômen em setembro. Sua viagem a Brasília pode demorar mais um pouco. Mas sua casa na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, deve se transformar de comando de campanha a centro de operações da transição.

No plano internacional, Bolsonaro expressou o desejo de um alinhamento com o presidente americano Donald Trump, que ligou para felicitar o presidente eleito. Em termos regionais, a aproximação pode acentuar a pressão sobre o governo da Venezuela, país que sofre uma crise econômica e social.

Agenda social
Bolsonaro chega ao poder com propostas para blindar judicialmente as operações policiais e flexibilizar o porte de armas para combater a criminalidade, em um país que registrou no ano passado quase 64.000 homicídios.

Seguindo os passos de Trump, Bolsonaro e seus simpatizantes transformaram a imprensa e os jornalistas em alvos. Também anunciou a intenção de acabar com o “ativismo ecologista ‘xiita'”. E chegou a afirmar que desejaria aumentar de 11 para 21 o número de juízes no STF, o que lhe daria a possibilidade de nomear magistrados favoráveis a seus planos.

As ideias provocaram receio entre as organizações de defesa dos direitos humanos. A ONG Human Rights Watch fez um apelo urgente a proteger os direitos democráticos no Brasil, Tomaz Paoliello, professor de Relações Internacionais da PUC de São Paulo, teme um aprofundamento das tensões institucionais no governo Bolsonaro. “Penso que será um governo que tentará interferir nos demais poderes e que chega com uma agenda contra os movimentos sociais” afirmou.

Oposição
Após o anúncio dos resultados, Haddad exigiu respeito por seus 45 milhões de eleitores e disse que a oposição ao futuro governo Bolsonaro será uma “tarefa enorme”. Haddad foi designado candidato pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, líder histórico da esquerda que cumpre uma pena de 12 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro.

Haddad contou com o apoio de milhões de brasileiros que se beneficiaram das políticas de inclusão social de Lula, mas a identificação também trouxe um grande índice de rejeição entre os que identificam Lula e o PT com os grandes escândalos de corrupção da última década.

Muitos líderes de partidos de centro e centro-esquerda se limitaram a expressar apoio crítico à candidatura de Haddad. Resta saber se o PT, derrotado pela primeira vez nas últimas cinco eleições presidenciais, é capaz de fazer a autocrítica solicitada por militantes e aliados.

A crise na esquerda não significa que Bolsonaro terá vida fácil, sobretudo pela necessidade de lidar com um Congresso com quase 30 partidos, dominado por lobbies conservadores mas não obrigatoriamente disciplinados na hora de votar os projetos.

A consultoria Eurasia Group afirma que Bolsonaro “não terá uma lua de mel muito intensa”, porque as eleições demonstraram sobretudo um “profundo desencanto da política e a revolta pela baixa qualidade dos serviços públicos nas áreas de saúde, segurança e educação”. “E é provável que Bolsonaro tenha dificuldades para satisfazer estas demandas, sobretudo em um contexto de cortes orçamentários”.

Pedro Augusto é jornalista e repórter do Jornal VANGUARDA.

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