Inteligência artificial e novo concurso para magistratura estão entre as medidas para dar celeridade aos processos judiciais em Pernambuco

Uso de inteligência artificial, exclusão de processos de execução fiscal, contratação de mais Juízes e servidores para o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJ PE) foram algumas das alternativas apresentadas na Casa do Povo, hoje, como partes da solução para aumentar a celeridade dos processos que tentam resolver as mais diversas demandas apresentadas pelos cidadão nos Fóruns do agreste. E tudo isso sob a perspectiva de representantes e usuários da justiça comum, mediada pelo Legislativo, apreciadas e rebatidas pelo próprio presidente do TJPE que se fez remotamente presente, graças ao recurso da transmissão ao vivo realizada pela TV Câmara Caruaru.

O momento foi promovido pelo Poder Legislativo, através de seu presidente Bruno Lambreta (PSDB), em formato de audiência pública que ocorreu no plenário, hoje (27), atendendo provocação direta da OAB Caruaru, onde participaram ativamente prepostos da sociedade civil, como a Defensoria Pública, Procuradoria do Estado,Procuradoria do Município, advogados, presidente da OAB Pernambuco e presidentes de seccionais da Ordem dos Advogados de Caruaru e região, que compuseram a mesa de debate, bem como diretores, coordenador e acadêmicos de Faculdades de Direito de Caruaru, além dos vereadores.

Bruno Lambreta iniciou a audiência cumprimentando as autoridades presentes e galeria – que estava tão lotada que faltou assento para os que acompanhavam as discussões – o que demonstra, mais uma vez a urgência e relevância da temática levantada, algo mencionado por Lambreta, que também lembrou que, em breve, com a entrega das novas instalações da Câmara, a população terá um plenário a altura das demandas da população Caruaruense para continuar sendo, de forma efetiva, o centro de importantes convenções como essa. Em seu discurso, o parlamentar destacou as diretrizes que deveriam nortear toda a reunião como a cordialidade e a união de todos os interessados em prol de uma justiça mais célere e acessível para todos.

O presidente da OAB Caruaru, Fernando Júnior, que provocou a pauta, reconheceu na tribuna a diplomacia e proatividade do presidente do TJPE, o desembargador Ricardo Paz Barreto que, segundo ele, por questões extemporâneas não pode estar presencialmente no evento, mas que já se colocava à disposição da classe para receber todas as reivindicações documentadas e que seriam prontamente deliberadas e respondidas. Fernando também exaltou o pleito atendido pelo TJ por intermédio da sua atual liderança que foi o pagamento dos alvarás por meio de PIX, resolvendo a antiga demora que a classe enfrentava para ter efetivado o devido recebimento.

O representante dos advogados na cidade aproveitou o ensejo para introduzir os tópicos que também seriam reivindicados na mesma pauta, como a instabilidade do link que dá acesso às audiências com os magistrados, a utilização de inteligência artificial para desempenhar o papel meramente cartorário das varas, o enorme acervo processual que fica ao encargo de poucos servidores, a transição da Diretoria Cível que atende as demandas processuais de Caruaru e municípios limítrofes como Santa Cruz, Surubim, Belo Jardim, Pesqueira, entre outros.

Já o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco, Fernando Ribeiro, destacou a importância de ampliar o número de magistrados para a melhor distribuição entre as comarcas do estado, além de contratar novos servidores, pois o papel humano nas atividades judiciárias é indispensável, ainda que a ajuda da tecnologia se faça urgente para agilização de etapas que podem muito bem serem executadas por máquinas. Fernando também relembrou na tribuna, os inúmeros prejuízos causados a população e ao comércio dos locais onde algumas comarcas tiveram suas atividade encerradas com o fechamento de fóruns em cidades pequenas da região.

A defensora pública, Cláudia Xenofontes, também convidada a participar da mesa de discussão destacou a situação ainda mais lastimável daqueles da qual a celeridade do processo depende suas próprias vidas, como as vítimas de violência doméstica e outras partes tão vulneráveis quanto: pessoas hipossuficientes, que muitas vezes comparecem às audiências após percorrerem longos trechos de caminhada a pé, sem sequer ter tomado um café e ainda ter que ouvir do defensor que ele precisa peregrinar até as varas para desdobramentos de seus despachos.

“Apresentar um olhar sobre nova perspectiva”, foi a preocupação de Agenor Miranda – procurador do Estado, que na ocasião também representava a procuradora geral, Bianca Teixeira. Para ele, dados bastante alarmantes apresentados em matéria que leu durante a audiência, poderiam apresentar a chave para uma solução mais rápida e certeira que aliviará, bastante o acervo das varas. Segundo a estatística demonstrada por ele, hoje 88% da taxa de congestionamento dos processos fica por conta do próprio Estado que demanda o judiciário com excessos de Execuções fiscais, sendo que 52% dessas provocações poderiam ser extintas pelo juiz como ocorrem em âmbito federal – medida incentivada por um trabalho em conjunto da Procuradoria da Fazenda, Conselho Nacional de Justiça e União e que poderiam muito bem ser replicada aqui. Ele que já foi servidor e também oficial de justiça do TJ diz que entende as dificuldades internas enfrentadas pela instituição e ratificou também a fala de urgência de Xenofontes quando disse que as mulheres vítimas de violência não podem mesmo esperar o tempo que leva hoje um processo de pensão alimentícia, por exemplo.

A vereadora Perpétua Dantas (PV), que como bem remontou em sua fala estar vereadora pelo mandato, mas ser advogada e professora de direito por profissão, corroborou com as observações dos colegas advogados, lembrando o início de sua atuação lá atrás e apontou que a justiça pernambucana precisa reformular sua forma atuação para de fato tornar-se acessível a grande população e que ninguém busca os fóruns atoa, ou de boa vontade, mas por problemas que de verdade doem na alma – relatou com empatia. E cobrou energicamente que os apontamentos defendidos na audiências fossem levados a cabo.

Ricardo Paz Barreto, presidente do TJ PE, agradecendo os apontamentos, que segundo ele serão analisados com muito respeito e cautela, também enalteceu a oportunidade de poder dividir com todos ali as medidas adotadas pelo tribunal para sanar essas questões e que começam a ser executadas a partir desta primeira semana de março. Ricardo falou sobre a intensa capacitação interna que os servidores estão recebendo desde o ano passado para atuar na renovação de cada uma das diretorias, que não se restringe a área cível simplesmente, mas que são formadas em torno de cada uma das disciplinas em que atuam as varas de justiça de Pernambuco e que funcionarão geridas por núcleos formados por servidores de todo o estado, comandados e coordenados pela sede, e que trabalharão de forma remota, sem ter que se afastar de suas comarcas, mas atuarão com muito mais eficiência, amparados por aparatos tecnológicos, orientação e fiscalização direta de desempenho e produtividade – que serão medidas por escalas objetivas, desenvolvidas para refletir fielmente cada uma das etapas a serem acompanhadas e hão de impactar muito positivamente na celeridade processual – através de um programa que bonificará substancialmente com incentivos financeiros os servidores que baterem suas metas e prazos.

Esperança foi o sentimento externado pela maioria dos oradores que se inscreveram para usar a tribuna após a fala de Paz Barreto, outros menos otimistas preferiram usar o termo “benefício da dúvida”. O procurador do município, Bruno Bacelar, convidado pela Casa a participar da mesa de discussão, e que representava o prefeito Rodrigo Pinheiro no momento, elogiou a iniciativa da Câmara em parceria com a OAB, sustentando atenção do seu discurso de encerramento nas palavras proferidas no momento: “ o benefício da dúvida existe (…) a esperança também existe. Se de fato a efetividade dessas diretorias funcionarem será ótimo e externaremos o elogio e o faremos chegar até o Tribunal de Justiça, caso não, estaremos aqui à disposição’, concluiu.

Pedro Augusto é jornalista e repórter do Jornal VANGUARDA.